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04 junho 2009

Debate Promovido pela FDC: "ENSINO SUPERIOR EM MOÇAMBIQUE: SITUAÇÃO ACTUAL, PRINCIPAIS DESAFIOS E PERSPECTIVAS"

A Ordem dos Engenheiros de Moçambique agradece à FDC a oportunidade de participar neste debate sobre um tema que consideramos de enorme importância para o desenvolvimento socio-económico de Moçambique.

Atendendo ao tempo limitado de que dispomos para apresentar as posições da Ordem dos Engenheiros de Moçambique, vamos referir de imediato os aspectos da situação actual e das reformas em curso que nos merecem mais atenção.


Olhando para a situação actual, consideramos positivo o aumento da oferta de cursos universitários de engenharia em instituições do ensino superior públicas e privadas, que agora já não se limitam apenas à capital do País mas são oferecidos em muitas capitais provinciais e em outros centros urbanos. Esta oferta é importante para tentar aumentar a percentagem de estudantes de engenharia que é extremamente baixa no total de estudantes do ensino superior de Moçambique. Pelo facto de estes cursos serem leccionados em muitas Províncias certamente muito mais jovens poderão, através deles, aceder à carreira de engenheiros.


Constitui, no entanto, para a Ordem dos Engenheiros motivo de grande preocupação que alguns / muitos desses cursos estejam a ser abertos sem que as respectivas IES, públicas ou privadas, disponham dos recursos humanos qualificados, dos equipamentos e dos recursos financeiros para o seu normal funcionamento, com reflexos negativos sérios na qualidade dos graduados e na sua capacidade de actuarem verdadeiramente como engenheiros.


Parece-nos fundamental que a questão da qualidade dos graduados seja devidamente salvaguardada pelo Ministério da Educação e Cultura, instituição que tutela o ensino superior. Para tal, pensamos que o CNAQ – Conselho Nacional de Avaliação e Qualidade deverá entrar em actividade o mais rapidamente possível e a Ordem dos Engenheiros disponibiliza-se desde já para prestar a colaboração que lhe for solicitada nos processos de avaliação da qualidade e acreditação.


A esse respeito, a Ordem dos Engenheiros orgulha-se de ter conduzido, num projecto em colaboração com o Ministério da Educação e Cultura, o primeiro processo de acreditação de cursos superiores em Moçambique, processo esse apoiado pelo ECSA – Engineering Council of South Africa e no final do qual foram concedidas acreditações aos sete cursos de Engenharia leccionados pela UEM (cinco pela Faculdade de Engenharia e dois pela Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal).


Nesta altura, está em curso um processo de acreditação pela Ordem dos Engenheiros dos cursos de Engenharia leccionados pelo ISUTC – Instituto Superior de Transportes e Comunicações, tendo a Ordem sido também contactada nesse sentido pelas Universidades Piaget e A Politécnica.

Por se terem detectado diversas lacunas, os cursos de engenharia da UEM foram acreditados por um período limitado, prevendo-se que em 2009 a Ordem dos Engenheiros faria novas visitas de auditoria às duas Faculdades para verificar as melhorias introduzidas. Isto, porém, não chegou a ser feito por entretanto a UEM ter entrado num novo processo de reforma curricular de que iremos falar mais adiante.


A situação actual do ensino superior de engenharia neste ano de 2009 nas diversas IES apresenta diversos graus, de acordo com a Lei do Ensino Superior em vigor:

  • Bacharelatos de 3 anos, sobretudo a nível dos Institutos Superiores Politécnicos
  • Licenciaturas de 4 a 5 anos, leccionados por todas as IES que têm a componente de engenharia
  • Mestrados (poucos) num pequeno número de IES, que são cursos de especialização pós-licenciatura.

O exercício da profissão de engenheiro em Moçambique exige, em termos legais, a inscrição na Ordem dos Engenheiros. Por sua vez, os estatutos da OrdEM apenas permitem a inscrição a quem tenha o grau de Licenciado em engenharia.


O Ministério da Educação e Cultura lançou em 2008 um processo de reforma, envolvendo consultas alargadas nas quais a Ordem dos Engenheiros teve oportunidade de se pronunciar, com vista a introduzir alterações que facilitem o processo de integração regional. A nível da região e tomando a África do Sul como referência, existem os graus de B.Eng. (Bachelor in Engineering) e M.Sc. ou M.Eng. (Master of Science ou Master of Engineering). As melhores universidades de engenharia sul-africanas (Witwatersrand, Pretoria, Stellenbosch, Cape Town) têm B.Eng. com 4 anos de duração e M.Sc. / M.Eng. com 1.5 a 2 anos de duração. O grau de B.Eng. é o grau de entrada na profissão de engenheiro e o requisito principal para a inscrição, obrigatória, no ECSA. Se se comparar com a situação actual no nosso país, a nossa licenciatura seria equivalente ao B.Eng. e o nosso Mestrado ao M.Sc. sul-africano.


A proposta de alteração à Lei do Ensino Superior encaminhada pelo Governo à Assembleia da República, pelo que pudemos acompanhar pela imprensa, prevê os graus de licenciatura com a duração de 3 a 4 anos e Mestrado com a duração de 1 a 2 anos [1].

A experiência internacional diz que 4 anos para a formação de engenheiros é um mínimo, adoptado em países com sólida formação pré-universitária como o Reino Unido, Estados Unidos ou Austrália. Na África do Sul, a Universidade de Pretória introduziu a alternativa de 5 anos para o B.Eng. para os estudantes socially disadvantaged. O Washington Accord, de que a África do Sul é signatária, exige o mínimo de 4 anos de formação universitária em engenharia. A França e a Espanha continuam a ter a exigência de 5 anos de formação para engenheiros tal como a quase totalidade dos países da América Latina.


Por isso, a Ordem dos Engenheiros pensa que o tempo absolutamente mínimo de formação de engenheiros em Moçambique deve ser de 4 anos e que seria preferível que as IES pudessem alargar o tempo de formação para 4.5 ou até para 5 anos. Em alternativa, considerando a fraca preparação que grande parte dos estudantes traz do ensino secundário, poderá considerar-se um ano propedêutico a anteceder os 4 anos do curso. No entanto, esta não nos parece ser uma boa solução para colmatar as crescentes deficiências do ensino básico e secundário.


Os cursos de Engenharia da UEM são a maior fonte de engenheiros no nosso País. É inegável o peso dos cursos de Engenharia da UEM e isso motiva a OrdEM a expressar de forma clara as suas preocupações em relação à reforma que está a ser levada a cabo nesta instituição.

Por razões que não descortinamos, a reforma na UEM é inspirada pelo Processo de Bolonha que teve lugar na Europa, traduzido pelo esquema de 3+2. Um primeiro comentário que traduz uma grande preocupação da OrdEM é saber a que nível vão ser formados os futuros engenheiros. O licenciado que está a ser proposto, num curso de 3 anos de duração, certamente não corresponde em termos de formação a um futuro engenheiro, portanto apenas o Mestre, com mais 2 anos de curso, terá essa formação. A OrdEM não irá aceitar os licenciados com 3 anos de formação para o seu registo como engenheiros por considerar tal tempo de formação como insuficiente e desalinhado dos padrões regionais e internacionais. Parece-nos importante que a UEM clarifique este aspecto aos estudantes que vão ingressar nos seus cursos para evitar que surjam mais tarde problemas maiores de carácter social.


Para termos uma ideia do que se está a passar com o Processo de Bolonha na Europa, podemos referir a situação actual em Portugal. A Ordem dos Engenheiros de Portugal não aceita a inscrição como engenheiros dos Licenciados com 3 anos de formação e, por isso, este grau de formação deixou de ter qualquer valor – a tal ponto que, no último ano lectivo, quase nenhum estudante da que é considerada a melhor universidade de engenharia portuguesa, o Instituto Superior Técnico, que terminou a licenciatura foi à procura de emprego ou se preocupou sequer em ir buscar o diploma!


Por outro lado, como se irá diferenciar os actuais Licenciados, com formação de 4-5 anos, dos novos Licenciados com apenas 3 anos de formação e sem acesso directo ao grau de engenheiro?

Pelos contactos com as mais diversas empresas da área de engenharia, constatamos que as nossas posições e preocupações são largamente partilhadas. Infelizmente, a consulta aos empregadores dos futuros graduados destes novos cursos tem sido quase inexistente. Pensamos que é de toda a conveniência que essas consultas se façam com o tempo e a profundidade necessária, não devendo esta componente tão essencial ser sacrificada com pressas desnecessárias de avançar com os novos cursos.


Finalmente, e apenas como referência breve uma vez que não é o tema central deste encontro, a Ordem dos Engenheiros vê com preocupação que o número de estudantes universitários tem crescido muito mais rapidamente do que o de estudantes no ensino técnico. Para além de paradoxal, põe em causa a estrutura piramidal do trabalho de engenharia (a engenharia não se faz só com engenheiros).


Agradecemos a todos a atenção dispensada.


Maputo, 19 de Maio de 2009



Álvaro Carmo Vaz

Bastonário da Ordem dos Engenheiros de Moçambique



Nota:

A Ordem dos Engenheiros de Moçambique foi convidada pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade - FDC para um debate sobre o ensino superior no dia 19 de Maio. No debate estiveram presentes, para além da Dra. Graça Machel, Dr. Narciso Matos e outros quadros da FDC, diversas personalidades como o Dr. Rui Baltazar, Dr. Eneias Comiche, Arq. Júlio Carrilho, Dr. Abdul Carimo, Prof. Lourenço do Rosário, Dr. Nelson Saúte, Eng. Abdul Fakir e Eng. Silva Magaia. Esteve também presente o Bastonário da Ordem dos Advogados. Igualmente estiveram presentes os presidentes das associações de estudantes universitários da UEM e do ISCTEM. Infelizmente a UEM e o Ministério da Educação não se fizeram representar apesar de convidados pela FDC.


Entretanto, recorde, aqui neste blog, o copito que tomei com o Reitor da U.E.M.



[1] Não nos pronunciamos sobre o grau de Doutor, uma vez que este se destina essencialmente à formação de investigadores.

12 outubro 2008

Professor é teu Professor para o Resto da Vida!


"O professor medíocre descreve, o professor bom explica, o professor óptimo demonstra e o professor fora de série inspira"
William Arthur Ward

Conforme Séneca “A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”, e hoje celebramos o dia desta classe profissional que dedica e tem em suas mãos a tarefa árdua de formar os habitantes desta nação a serem cidadãos e agentes do progresso social, científico e económico. É árdua porque sabemos das precárias condições de trabalho a que se encontra votado o professor, nao só em termos de salários magros e usualmente pagos após longos períodos de espera, mas também pelas infraestruturas degradadas, turmas superlotadas e fundamentalmente porque, como diz Carlos Drummond, “a educação visa melhorar a natureza do homem, o que nem sempre é aceite pelo interessado”. Isso mesmo, a desmotivação dos alunos, para nosso desalento, tem vindo a ser exponencialmente exacerbada pela recente introdução das polémicas passagens automáticas.

Portanto, há problemas estruturais candentes no sistema, que tornam ser professor nesta Pérola do Indico numa autêntica “barra”! Enquanto denunciamos esses problemas e propomos soluções, não nos devemos esquecer que esta é uma das fundamentais profissões nobres de uma sociedade. Não estamos de forma alguma a insinuar que o professor deva passar a fome ou que as entidades responsáveis nao se devam preocupar a assegurar que o professor aufira a salários que o permitam ter uma vida condigna, mas também lembramos que o professor não pode abraçar esta actividade esperando que venha a ter uma vida similar a dos “lordes da droga”!

Tem vindo a observar-se uma corrosão progressiva dos valores morais desta sociedade e uma coisa em que não se tem prestado a devida atenção é o facto deste “homem” actualmente “corroído” comecar a sua formação na escola. Portanto, tudo o que acontece nesse ambiente é fundamental e precisa de estar sob controlo para que os alicerces não só da ciência e letras, mas também da cidadania, ética e moral, se incrustem nas pessoas desses novos agentes que se vão formando para ir pegando a tocha do desenvolvimento desta nação.

É salutar sabermos que na véspera desta data, a Organização Nacional dos Professores tenha lançado o “Código de Conduta” desta classe, porque sabemos que, apesar de vários casos excepcionais, muito criticismo tem sido levantado para a atitude e comportamento de uma grande maioria dos nossos professores, que se tem deteriorado progressivamente, veja-se, desde os meados da década de 80. Ocorrendo mais de duas décadas depois……..este é um exemplo “clássico” do “mais vale tarde do que nunca”! É premente e pertinente que a troca de notas de passagem de classe por dinheiro ou por favores sexuais, que se encontra enraizada das “unhas dos dedos dos pés às pontas dos cabelos” do nosso sistema de ensino desapareça completamente de todas as escolas deste território, se estivermos realmente cometidos com a formação de sua sociedade que se assente em valores morais, respeito e honestidade!

Esse é o desafio que levantamos aos nossos professores, neste 12 de Outubro de 2008, porque esta classe, fora as outras variáveis e variantes do sistema, tem um potencial enorme para mudar o curso que tem seguido este sector crucial para a formação desta sociedade que queremos, não seja de “habitantes”, mas de “cidadãos”!

Deve ser reconfortante, quando volvidos tantos anos, encontremos aquele nosso professor da primária e nos recordemos das lições de vida que deles recebemos ou que estes ensinaram para que hoje, aquele pupilo de outrora seja um competente engenheiro, médico, agrónomo, arquitecto, sociólogo ou jurista! Este é o resultado do investimento de longo prazo que estes profissionais realizam para esta sociedade e parte essencial dos “lucros” dessa aposta. Não são raros os casos em que ex-alunos, dezenas de anos mais tarde compram uma motorizada, uma bicicleta ou mesmo constroem uma casa para os seus professores!

É mesmo isso: “O professor é professor para o resto das nossas vidas!”

É portanto, fundamental que voltemos a cimentar esses valores nesta Pérola do Índico e que o professor não volte a ser lembrado com pavor e desdém, pelas “atrocidades” que cometera!

Vai por isso um abraço caloroso a todos os profissionais deste sector, pelo trabalho árduo, dedicação e empenho que têm desenvolvido em prol do progresso futuro desta nação. Um “shout-out loud” a todos os bloguistas, em especial à Ximbitane e Yndongah por simultaneamente pertencerem a esta classe “previlegiada” e também contribuirem efusivamente para o debate permanente de ideias nesta “esfera” que nada tem de “virtual”!

A terminar, gostaria que reflectissemos sobre esta frase de Franz Kafka :

“Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.”

Tenham um bom dia e é bom sinal que a ministra Taípo não dará tolerância de ponto amanhã, porque os nossos miúdos (como o Mazanga) precisam muito de aprender e a qualidade do nosso ensino precisa de melhorar imenso!

19 agosto 2008

Ministério da Educação “dá mão a palmatória” - Afinal o “Desenvolver Moçambique” e os seus Leitores tinham razão!!

Desde a postagem do “Tomando um copito com o Ministro da Educação” e coincidência ou não, tenho notado através dos media, uma cada vez mais acentuada intervenção dos Órgãos máximos do MEC, no que concerne ao “problema da qualidade no nosso ensino”!
Como corolário dessa situação e mesmo a corroborar o que temos vindo a afirmar neste blogue, o Ministério da Educação, na pessoa da Directora Nacional Adjunta do INDE – Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação, Albertina Moreno, afirma na edição de hoje do Canal de Moçambique e, passamos a citar:

“Ensino é mau em Moçambique”
- reconhece Albertina Moreno, directora Nacional Adjunta do Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação

Reconhecemos que a qualidade de ensino no país não respira boa saúde por isso queremos partilhar os problemas e obter subsídios de informação como forma de melhorarmos o currículo” “Os alunos não sabem ler e escrever, faltam e até desistem algum tempo das aulas mas no final do ano transitam de classe. Os professores não tem preocupação de ensinar os alunos porque sabem que no fim do ano os mesmos vão transitar de classe”

Esta é uma posição bastante salutar por parte do Ministério da Educação e principalmente do seu Ministro, Aires Ali!
- Que comecemos a debater honesta e abertamente os problemas que afectam a nossa nação!
- Que os fazedores de políticas públicas desçam do seu pedestal e comecem a libertar-se da capa de “sempre correctos”!
- Que os órgaos decisórios comecem a abandonar por completo a estrutura “top-down” que tem caracterizado a nossa esfera politica!

Porque, se a governação existe para servir ao povo, então é fundamental que ele faça parte e seja um actor fundamental em tudo o que esteja para ser implementado a seu respeito!

Hoje em dia, e aqui falo das nações bem desenvolvidas, onde as instituições públicas possuem dos mais bem qualificados quadros, a estrutura decisória passou a ser “horizontal”. Falando especificamente da minha área, não mais se constrói ou se reestrutura uma cidade, sem o envolvimento dos seus principais beneficiários.

Por isso, dou os meus parabéns ao Ministerio da Educação e ao Ministro Aires Ali pela iniciativa e coragem em abordar honestamente estes assuntos com a sociedade civil, principal beneficiária dos serviços e políticas deste sector crucial ao Desenvolvimento desta nação!

Que isto sirva de exemplo aos restantes membros do Conselho de Ministros!

Bem haja MEC!