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28 agosto 2008

Os negros não lêem!!

“Books are the quietest and most constant of friends; they are the most accessible and wisest of counselors, and the most patient of teachers.”
Charles W. Eliot

De tempos em tempos, cai na minha caixa de email o artigo com o titulo em epígrafe. Este email retrata o assunto baseando-se no contexto norte-americano e, diga-se de passagem, ele contém algumas verdades! Porém, eu acho que em vez de se confinar a aversão à leitura, meramente a uma questão racial, julgo que seria antes de mais, pertinente estudar o contexto social que produz um indivíduo que não lê ou que pouco lê.

Olhando para o mundo em geral, e especialmente para os países “ditos” pobres, como Moçambique, as dificuldades económicas, a falta de bibliotecas apetrechadas e, fundamentalmente, a falta de cultura de leitura, entre outros, são factores que costumam ser evocados para justificar as taxas extremamente baixas de leitura dentre a população.

“Os ricos lêem porque eles tem a barriga cheia e nada mais porque se preocuparem!” (costumamos dizer, não?) Enquanto as nossas mamanas têm que acordar cedo para ir a machamba ou atravessar a fronteira para comprar produtos a serem posteriormente revendidos cá no mercado nacional, (tarefa que lhes absorve todo o dia, regressando à casa apenas ao entardecer), onde encontrarão tempo para leitura? Ou por outra, como subtrair parte dos seus parcos recursos para comprar um livro para si ou para os seus filhos?? Melhor ainda, saberão elas do potencial que essas obras literárias têm e que influência podem dar às suas vidas e dos seus?

E nós que temos a “sorte” de ter um certo nível de educação, temos um emprego “saudável”, qual é a nossa atitude perante a leitura? Sem falar em romances ou livros técnicos, quantos de nos já leram, por acaso, a Lei do Trabalho ou a Constituição da República?? Ou essas são matérias para os juristas e advogados?

Acredito que, para a maioria de nós que estamos próximos ou para lá dos 30, nossa infância ocorreu numa altura em que ainda havia pouca televisão, sem falar da cibernética ou da era digital. Os livros eram parte integrante do nosso dia a dia. Me vem agora a memória a nossa malograda revista de banda desenhada “Kurika” que iamos adquirir semanalmente ali ao Instituto do Livro e Disco, ou as aventuras de Corto Maltese, Tintin, Asterix&Obelix, Popeye, o sovina do tio Patinhas, etc, que despertaram em muitos de nós o mundo das letras e permitiu que fôssemos refinando a nossa leitura (géneros) com o tempo e de acordo com o estágio das nossas vidas.

Mas há uma coisa que é preciso perceber: dificilmente alguém nasce, assim só, com “apetite” para a leitura. É preciso estar exposto a esse ambiente, é preciso que essa “cultura” lhe seja dada a conhecer, pelos pais, seja pela escola, amigos, etc, como se fosse um botão de “start” para esse “bichinho” entrar em funcionamento.

Abordei recentemente neste blog, a problemática que tem assolado o nosso sector de educação e, conforme me constou, decorreu recentemente penso que um seminário, para avaliar o estágio da leitura e da escrita nas nossas escolas. Com as passagens automáticas que tem estado a ser implementadas e, com o reconhecido desinteresse dos alunos pelos estudos (visto que sabem que independentemente do seu desempenho, passarão de classe), não estou a ver incentivo algum para a leitura. Ademais, e atendendo ao novo currículo, será que existe alguma componente ou disciplina desenhada para impulsionar o gosto pela leitura nos nossos alunos desde a sua tenra idade? Existe algum esforço de ter bibliotecas apetrechadas nas escolas e “forçar” (se for necessário) os alunos a dispenderem algum tempo nelas a fim de irem descobrindo o mundo fantástico que se esconde pelas páginas das obras literárias?? Faço estas perguntas, mas eu e leitor sabemos virtualmente, quais são as respostas! Aliás, a maneira como muita da nossa juventude escreve, pode indicar claramente, o pulsar do seu nível de leitura.

Os nórdicos que antes eram meros artesãos e carpinteiros, buscaram a descoberta do seu novo destino através da leitura de livros que narravam os feitos, culturas e desenvolvimentos de outros povos. Procuraram garantir que o livro fizesse parte do dia a dia dos seus cidadãos. Hoje são dos países mais desenvolvidos deste planeta e com padrões de vida dos mais elevados.

O que quero aqui referir é que, a pobreza nunca pode ser tomada como justificação para a não leitura. Aliás, é exactamente nesse cenário, em que a leitura deve ser adoptada como uma alternativa credível para a mudança do estado de miséria em que os indivíduos se encontrem. O agricultor pode encontrar nos livros, os meios para melhorar a sua produção; o carpinteiro, a maneira de usar a quantidade exígua de madeira que possui, de forma mais racional e de modo a produzir peças mais arrojadas, só para citar alguns exemplos.

Não existe melhor tese para suportar o que acabei de referir, como o caso do jovem malawiano William Kamkwamba que, na impossibilidade de continuar com os seus estudos (porque a família não tinha 80USD para pagar as propinas), passou a dedicar seu tempo na biblioteca da escola da sua vila e, dentre várias coisas, começou a produzir electricidade para a moradia de seus pais, a partir de um moinho de vento por si inventado. E tudo isso, claro e sem tirar crédito à sua capacidade criativa, começou pela leitura dum livro que versava sobre a matéria!

É por isso, fundamental que não só incrementemos o nosso apetite pela leitura, mas que sejamos também agentes impulsionadores no nosso meio, para que mais gente adira a leitura, e leia bons livros!!
Mas cuidado, e como diz Lin Yutang, “Não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais!”