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09 junho 2008

"Quero construir....Arranja-me lá um Projecto" - Quem são os Donos de Obra?

O “boom” no sector de construção civil em Moçambique, teve o seu inicio nos anos imediatamente a seguir aos Acordos Gerais de Paz, logo no inicio da década de 90.
Muito antes de se ter começado a falar das novas “áreas urbanizadas” ou de “expansão” das cidades, como “Belo Horizonte” (Maputo), “Muhala-Expansão” (Nampula), só para citar algumas, a construção já tinha renascido em áreas “previlegiadas” das capitais provinciais, incluindo até, zonas protegidas (proibidas). E nao é um “peão” qualquer que consegue transpor tantas “barreiras”, comprar um talhão (não nos iludamos com as cantigas da “Lei de Terras”; neste pais terreno compra-se e muito caro) em zonas “restritas” e construir os “palacetes” que temos vindo a observar, aqui nas encostas da Marginal, Bairro Triunfo, Sommerschild II, “Barreiras”, só para dar alguns exemplos aqui da capital. Um pedaço de terra de 20x40m2 nestes locais não custa menos de 50.000USD. Outro aspecto que precisa notar, é a dificuldade acrescida imposta pela topografia desses terrenos (taludes ingremes na marginal) ou suas caracteristicas geotécnicas (mangais da Costa do Sol), o que requer o envolvimento de técnicos qualificados e, consequentemente, custos elevados pelo projecto e pela solução arquitectónica e estrutural considerada. Estima-se que o valor médio da construção dessas obras ronde os 350.000USD e muitos dos seus proprietários, que vão desde “business men” (de todas as raças e bem conectados ao “sistema”), “top-executives” de empresas privadas e estatais até a famosa “nomenklatura”, (libertadores da nação e porque não, os seus legitimos “donos”!), recorrem geralmente a empresas de consultoria para a elaboração do projecto e posterior adjudicação da obra a empreiteiros para a sua execução. E como este pessoal “vai a todas”, eles também estão lá nos “Belos Horizontes”, “Malhampsenes”, “Estoril”, “Chuabo Dembes”, “Muhala-Expansão”, “WimbeII”, etc.
No entanto, não é esta fracção previlegiada que constitui o “motor” deste ressurgir da construção habitacional em Moçambique. Não menosprezando o tremendo “fosso” que os separa dos “barrigas grandes”, a classe que poderiamos considerar como a “dos que têm salário de licenciado” (cerca de 500USD/mês) é que é o vector principal deste processo. Embora o pais tenha ainda menos de 5% da sua população com ensino superior, esta “classe” tem uma base consideravelmente alargada, se tomarmos em conta que, mesmo os cobradores de “chapa” não aceitam um salário inferior a 5000 Mtn (200USD). O sector bancário que começa, mesmo que de forma espreguiçada, a prover serviços de crédito a habitação, tem os seus olhos virados para esta “classe” e se um dia, o “Fundo” da nossa linda psicóloga (já agora, não deveria ser alguém formado na área?) ousar criar uma politica coerente de habitação neste pais, é nestes seus verdadeiros “desenrascas” que se deve concentrar!
Esta classe tem de tudo: desde o cobrador de chapa, o proprietário da barraca, o vendedor informal, os “Sós doutores”, as famosas socialites, celebrities e por ai fora! Um autêntico TNT (tri-nitro-tolueno) social que, muitas das vezes, está apenas preocupado em ostentar o que não se tem ou não se é! A história da socialite contada aqui é apenas “um cheirinho” da pólvora que anda por ai escondida em embalagens de chocolate! Todo o mundo preocupado em “aparecer”: com o carro que o vizinho não tem (nem interessa se é roubado ou não), roupas “de marca”, fragrâncias francesas, quando “por dentro” não passamos da pior escumalha que se pode encontrar, vigaristas, mal alimentados (para compensação, uma “cabeça” logo de manhã na barraca da esquina nos dá cá um jeitinho!) e precisa ver a “capoeira” onde moramos! Todo o esforço empreendido é mesmo dedicado apenas para “aparências”! Valores como honestidade, trabalho árduo, honrar a palavra, ética, respeito mútuo, etc, desses temos pavor!
E quando decidimos “construir”, esse “modus vivendi” tem que ser operado na sua “máxima força”! Quem é o projectista que no decurso da sua carreira e, depois do trabalho árduo que envolve a elaboração de um projecto, não tenha ainda sido “vitima” das investidas destes nossos (pseudo) ricos? Habituados exactamente a uma sociedade que vive de “aparências” somos induzidos a observar alguns “parâmetros” para avaliar o “poder financeiro” dos que nos cruzam o caminho e, consideramos mais do que suficiente, firmar verbalmente os contratos de prestação dos nossos serviços! “E depois é que são elas…..”!
Aos meus “fellows” projectistas deixo aqui um modelo de contrato (escrito) a ser firmado sempre que vá oferecer os seus serviços, porque o “ladrão” e o “vigarista” do século XXI não precisa necessariamente de aparecer com aquela cara ameaçadora e uma espada de dois gumes! Ele vem num Mercedes-Benz, trajado num fato “Pierre Cardin”, bem cheirozinho e com muitos celulares (passando por muito solicitado e com muitos business “to run”).

É isso, meus caros compatriotas! “A riqueza de um pais, é o seu povo”! Vamos lá investir e nos esforçarmos, a cada momento do nosso dia-a-dia, em sermos melhores pessoas para connosco próprios e para com os demais!

03 junho 2008

"Quero construir....Arranja-me lá um Projecto" - O Dono de Obra

Muita tinta foi já gasta a falar da elaboração do Projecto e dos “diabos” dos Projectistas e acho ser justo olharmos um pouco para “o outro lado da vedação”: O Clinte; O Dono de Obra! Referi “diabólico” porque o projectista é isso mesmo: Ser repugnante, cobra muito dinheiro, atrasa com a entrega do projecto e comete tantas outras barbaridades sem fim. Nessa perspectiva, e tal como nos filmes onde temos “artistas” e “bandidos”, então o Dono de Obra seria um Ser “imaculado”, “vitima” do processo e sempre penalizado! Será mesmo??
Como “amendoins” (no bar) para este “post” quero partilhar convosco um episodio dos meus tempos de estudante: Uma “socialite” cá da praça foi a mim introduzida por um amigo! Para minha surpresa, a fulana estava “à rasca” de umas “aulas de explicação” para poder fazer o exame externo de Matemática da 12a classe. Digo surpresa, porque logo à partida, somos quase sempre induzidos a pensar que “Celebrity”, para além do seu “muito” dinhero, tem grau universitário, felicidade e tudo o que alguém pode almejar nesta vida! Pensamos nisso tudo, sem nos questionarmos do que quer que seja!
Imaginem uma “fêmea” mesmo (bonita, hein!), no seu “senhor” Patrol, roupas de marca (ou de etiqueta como dizem os “Brasucas”) e fragrâncias das mais bem cheirosas……! Quem ousa duvidar? Acertamos os honorários (verbalmente, não é essa a prática?) e fui dando as aturadas explicações a nossa “socialite”! Terminado o “serviço” no periodo acordado, outro espanto: Um cheque sem cobertura e, para não variar, o subsequente jogo de “gato e rato”. “Celebrities” surpreendem mesmo! Vocês não imaginam o “bico de obra” que foi reaver os meus tostões! E eram tostões mesmo, porque se estou bem lembrado, a quantia nem sequer excedia os 100 USD…..Essa foi uma “ganda” lição de vida!

A pergunta que ocorre então é: Quem está por detrás desse ressurgir da construção habitacional em Moçambique, qual a “demografia” desse(s) grupo(s), como caracterizá-lo(s) ? Quem são os nossos Donos de Obra??

(……continua no próximo post)

20 maio 2008

"Quero construir....Arranja-me lá um Projecto" - Quem afinal são os” Projectistas” em Moçambique?

Moçambique tem uma única (desculpe a tautologia) Faculdade de Arquitectura (Universidade Eduardo Mondlane-UEM) cujas admissões anuais (salvo desenvolvimentos recentes) se situam na ordem de 3 dezenas e graduações de pouco mais de 1 dezena. O mesmo aconteceu durante muito tempo com o Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da mesma universidade, com a única excepção de as graduações serem ainda em nivel mais reduzido (cerca de meia dúzia/ano). Recentemente foi introduzido o curso pós-laboral que permitiu pouco mais de duplicar o número de admissões/ano e alterações curriculares permitiram melhorar o “output”. Nos últimos 10 anos, com a avalanche de instituições privadas de ensino superior, o ISPU (agora Universidade Politécnica) e o ISUTC iniciaram cursos de Engenharia Civil, mais ou menos com a mesma porção de admitidos que a UEM, mas com o número de graduados um bocado maior!
Este cenário permite ter a imagem de quão reduzido é o número de técnicos com formação superior para suprir a demanda que tem estado a verificar-se no sector de construção em Moçambique.
Só para terem uma ideia, o preço médio cobrado por estes profissionais pela elaboração do projecto de uma moradia unifamiliar (de até 2 pisos) ronda os USD1500, tanto para o arquitectónico, como para o estrutural (o arquitectónico tem tendência a ser mais caro).
Porém, quem “controla” o mercado de elaboração de projectos de moradias em Moçambique é a classe dos famosos “Engenheiros técnicos”. Alerto aqui aos leitores que, este “titulo” não existe na República de Moçambique. Os individuos graduados pelos “Institutos Industriais” (Nampula, Beira e Maputo) são, pelo seu diploma, “Técnicos Médios de Construção Civil”! Portanto, se um dia o Tribunal de Haia começar a julgar crimes por atentado a boa prática de construção civil, estes individuos estarão na fila da frente.
Ultimamente tem se ouvido falar persistentemente na reforma do ensino “técnico-profissional”, mas nada de concreto ainda está a acontecer no terreno. Enquanto isso, vão se formando deficientemente carradas destes técnicos que vão povoando o mercado, sem qualquer conhecimento ou capacidade real de executar as coisas! Eles elaboram projectos arquitectónicos e estruturais, cujo preço médio total varia entre os 200 e 400USD. Um dos grandes problemas deste sector (técnico-profissional) prende-se com o corpo docente! As direcções desses Institutos têm “pavor” de admitir Engenheiros, preferindo em seu lugar, colocar até estudantes recém-graduados! Digo isso com conhecimento de causa, pese embora a versão “oficialmente” vendida seja a de que, nenhum desses técnicos qualificados esteja interessado em leccionar naquelas instituições!
Mas é preciso realçar que, apesar de algumas limitações, também existem “técnicos médios” competentes (muitos deles já de meia-idade).
Com o advento da computação no pais, tem estado a surgir uma classe de “projectistas” que domina alguns programas de desenho como o Autocad, Archicad (quem sabe “Paintbrush” também) e que, sem qualquer formação técnica na área, se põe a elaborar projectos à torto e à direito. Eu me arriscaria a qualificar este grupo de, principais “terroristas arquitectónicos” de Moçambique. Me lembro agora de ter visto um projecto elaborado (vejam só) para uma instituição de Obras Públicas por um destes individuos e ele assinou-o como sendo um “Técnico Médio de Arquitectura”, hehe. O tipo era de descendência portuguesa e “é possivel” que lá atribuam este tipo de titulo, mas cá nenhuma instituição o confere.
Porém, existe uma classe ainda mais “perversa”! É a classe dos funcionários do Arquivo (Departamento de Infraestruturas) das várias Autarquias Municipais! Estes individuos, a mando de outros nada escrupulosos, retiram ilegalmente projectos lá arquivados (na maior parte dos casos, já executados) e tiram fotocópias que são depois redesenhadas pelos “terroristas arquitectónicos”! Mais tarde, a essas peças furtadas são adicionados “termos de responsabilidade” de um “Técnico qualificado” para a obtenção da respectiva licença de construção. Eu percebo que ainda estejamos há anos-luz do respeito pela propriedade privada e intelectual, mas asseguro-vos que, no dia em que estes crimes começarem a ser julgados por cá, quem irá pagar por eles não serão os funcionários dos Arquivos Municipais! Serão antes, os “proprietários” dessas moradias e os Técnicos (des)qualificados que, a troco de uma cerveja, assinam os “termos de responsabilidade” sem pestanejar e sem se preocupar com a proveniência do projecto!
Quando eu olho para o mercado de elaboração de projectos habitacionais nesta “Pérola do Indico”, noto que as variantes que orientam as pessoas durante a escolha do “projectista” são essencialmente “preço do projecto” e “falta de faro” e “educação arquitectónica” (perceber a sua beleza, da mesma maneira que diferenciamos um “Tata” de um “Mercedes-Benz”! Isso não se aprende em Faculdade alguma. Trata-se apenas de "bom senso"!), como o caso do “Só Doutor”, conforme reportado aqui ! Mas o cenário actual é encorajador e muita gente (principalmente a que têm algum poder de compra) está a perceber que, tal como os carros, as casas também tem “classes” e que é preciso escolher alguém competente para a projectar! O facto é que, por causa de 1000 dólares que aparentemente são poupados hoje, as pessoas terão que conviver para o resto das suas vidas com um pilar no centro da sala, um quarto sem iluminação natural (a lâmpada terá que ficar acesa mesmo de dia), uma habitação com um comportamento térmico deficiente (“este quarto como aquece!!!”) ou para não variar, aquela fenda (racha) que apesar das várias reparações (“que fizemos”), insiste em voltar a aparecer ali na parede ou no tecto!
A “história” do “Só Doutor” (ao contrário de “estórias”, estas relatam factos reais) ilustra bem a importância da escolha do “Projectista” para elaborar o seu projecto, seja habitacional ou de estabelecimento comercial.

Tudo o que acabo de referir são meros conselhos e por sinal, gratuitos! A decisão final sobre as suas escolhas dependem inteiramente de si, para que “amanhã” não tenha que apontar o dedo a quem quer que seja, para consigo partilhar responsabilidades!

(……a série continua!)

19 maio 2008

"Quero construir....Arranja-me lá um Projecto" - O Projectista

Um daqueles “doutores” que está convencido que o seu título se escreve com “D” maiúsculo e que não abdica de tê-lo estampado seja nos cartões de ATM, caderneta de cheques ou mesmo na sua camisete do Porto (comprada na MBS), decidiu construir! Conhecida que é a extravagância desses “caras”, decidiu construir uma moradia com dimensões “oceânicas”, não viesse alguém confundir a sua casa com a de um “coitadinho” qualquer e porquê não, realçar de uma vez por todas que o “Só Doutor” não brinca em serviço!
Um amigo meu, Técnico de electricidade estava encarregue de executar a instalação eléctrica e num desses dias me pediu uma boleia até ao local da obra! Foi assim que conheci a “mansão” do “Só Doutor”!
Para quem tem alguma andança neste mundo de construção, um olhar a qualquer edificação permite caracterizar o seu projectista! Eu fiquei decepcionado com a escolha do “Só Doutor” e, para vos ser franco, ainda fora da edifico, enquadrei o projectista na porção dos mais reles que se podem encontrar na praça! A casa já estava na sua fase final, com a cobertura, rebocos, etc, todos concluidos! Qual foi o meu espanto ao entrar para a sala (que parecia um mini-campo de futebol de salão)? Estava ali, bem no seu centro, um pilar acabado de betonar (hehe)! Ao pedir explicações fui informado que “a viga já não estava a aguentar e começou a vergar assustadoramente!” No desespero, teve que se “parir” (não vejo outro termo) um pilar, no local mais indesejável e com condições de apoio muito duvidosas. E podem ter certeza que, há muitos destes “doutores” (com “d” minúsculo) espalhados pelo pais a fora!
A minha preocupação é que, se porventura um dia, o betão se cansar do facto do seu titulo ("melhor amigo do homem") continuar a ser sistematicamente alienado e atribuido ao cão, haverá uma tragédia geral irreparável (e aqui não falo apenas de Moçambique)!

A pergunta que se segue então é: Quem afinal são os “projectistas” em Moçambique?

(……continua no próximo post)

13 maio 2008

"Quero construir....Arranja-me lá um Projecto" - O Projecto

Penso que todo o mundo que deseja construir a sua habitação, tem sempre em mente (pelo menos devia ter) a intenção de edificar algo que englobe a estética, harmonia espacial, funcionalidade orgânica, comforto, durabilidade, etc, ou resumindo, que o seu cantinho seja um verdadeiro “Burj Al Arab” sem que tenha que pagar 5000 euros/dormida para o resto da sua vida!
Todos esses elementos que pretende ver incorporados são definidos na altura de elaboração do projecto, daí a elevada importância que esta fase representa para a materialização dos seus objectivos!
Antes de mais, escolha alguém de reconhecida competência para lhe elaborar o Projecto e se não o conhecer devidamente, não tenha receio em perguntar qual a sua formação e que trabalhos terá já executado (um profissional de verdade não fica ofendido por isso). É fortemente recomendado que esse processo seja desencadeado muito à priori da data em que se pretende iniciar com a construção, pelas razões que a seguir indicarei (muita gente quando se dirige ao Projectista, quer o projecto “para ontem”!).

Não pretendo ser tão pouco teórico neste blog, mas só para terem uma ideia, um procedimento formal (caso de obras públicas) obrigaria à decomposição do processo de elaboração do projecto, em 5 fases distintas, a saber:
- Programa preliminar: documento fornecido pelo dono da obra ao projectista para definição dos objectivos, caracteristicas orgânicas e funcionais e condicionalismos financeiros da obra;
- Programa base: documento elaborado pelo pelo projectista a partir do programa preliminar, resultando na particularização deste, da verificação da sua viabilidade, e do estudo de soluções alternativas, e que, depois de aprovado pelo dono da obra, serve de base ao desenvolvimento das fases ulteriores do projecto;
- Estudo prévio: documento elaborado pelo projectista visando o desenvolvimento da solução programada, essencialmente no que respeita a concepção geral da obra;
- Anteprojecto ou Projecto base: é o desenvolvimento, pelo projectista, do estudo prévio aprovado pelo dono da obra, destinado a esclarecer os aspectos da solução proposta que possam dar lugar a dúvidas, a apresentar com maior grau de pormenor alternativas de soluções difíceis de definir no estudo prévio e, de um modo geral, a assentar em definitivo as bases a que deve obedecer a continuação do estudo sob a forma de projecto de execução;
- Projecto de Execução: é o documento elaborado pelo projectista, a partir do estudo prévio ou do anteprojecto aprovado pelo dono da obra, destinado a facultar todos os elementos necessários para a boa execução dos trabalhos, constituindo assim (se for o caso) o processo a apresentar para o concurso de adjudicação da empreitada.

Cá entre nós, não estamos para esses “nheque-nheques” todos e tudo é tratado verbalmente. Mas podem ter a certeza que, à medida que o processo vai decorrendo, estas fases vão emergindo naturalmente, porque não é possivel elaborar um projecto de hoje para amanhã. É necessário tempo suficiente para “amadurecer a coisa” e que depois das metamorfoses que eventualmente forem a ocorrer, cada um na qualidade de dono da obra, se sinta satisfeito com o produto (projecto) final que lhe é fornecido. No entanto, neste caso de obras particulares algumas fases são suprimidas, levando o processo a terminar geralmente na fase de Anteprojecto.

Conforme o R.E.G.E.U (Regulamento Geral de Edificações Urbanas), o Projecto deve conter todos os elementos necessários ao exacto esclarecimento da obra, justificação da sua concepção e dos processos e materiais de construção adoptados, bem como a indicação das condições da sua realização.

Fundamentalmente, este deverá consistir, mas não se restringe apenas às seguintes peças:
§ Parte escrita:
- Memória Descritiva e justificativa: que inclui a definição e descrição geral da obra, nomeadamente no que se refere ao fim a que se destina, a sua localização, interligações com outras obras, etc; indicação da natureza e condições do terreno; justificação da implantação da obra e da sua integração nos condicionamentos locais existentes ou planeados; descrição das soluções adoptadas com vista a satisfação das disposições legais e regulamentares em vigor; indicação das caracteristicas dos materiais, dos elementos de construção, das instalações e do equipamento; justificação técnico-económica, com referência especial aos planos gerais em que a obra se insere:
- Nota de cálculo: pretende-se informar sobre a solução estrutural adoptada e ao mesmo tempo justificar como ela irá garantir a estabilidade e solidez do edifício que se pretende construir.
§ Parte Desenhada
# Arquitectura
- Implantação geral
- Plantas de piso
- Planta de cobertura
- Alçados (frontal, posterior e laterais esquerdo e direito)
- Cortes transversais e longitudinais
- Mapa de vãos (portas, janelas e armários)
- Muro de vedação e portões
# Estrutura
- Planta de fundações
- Pormenores de fundações (paredes)
- Betão armado: sapatas de pilares
- Planta e pormenores de vigas
- Planta de lajes
- Pormenor de escadas
- Muro de vedação: pormenor de fundação e pilares
# Hidráulica
- Implantação – Rede de abastecimento de água
- Plantas de piso – Rede de abastecimento de água
- Implantação – Rede de Esgotos
- Plantas de piso – Rede de Esgotos
- Fossa Séptica
- Caixas de Inspecção e de Retenção de Gorduras
- Caixas de águas pluviais e Esquema de Ventilação
# Electricidade
- Instalação de Cabos
- Iluminação Exterior
- Iluminação
- Tomadas de Uso Geral
- Tomadas de Ar-condicionado
- Telefones
- Quadros, Esquema de Comando e Portinhola de Segurança

Em Moçambique, regra geral, os projectos acima referidos (Arquitectónico, Estrutural/Hidráulico e Eléctrico) são feitos por individuos distintos e sem qualquer forma de coordenação. Isto costuma trazer sérios problemas na altura de execução da obra, devido às discrepâncias que inevitavelmente ocorrem. O meu conselho é que, ao contactar um Projectista, deixe que ele forme a equipa de elaboração do projecto, mesmo que você tenha que negociar pessoalmente os honorários de cada um deles (aliás, para evitar intermediários, hehe). Isso facilita, de sobremaneira, no caso em que surgem dúvidas durante a construção. Nessas situações, bastará apenas contactar uma única pessoa (Projectista-coordenador da equipa), em vez de ter que ir atrás de quatro individuos.
No entanto, é bom perceber que esta questão da “Assistência técnica”, que visa não só, a correcta interpretação do projecto, mas sobretudo garantir que a obra seja executada com a qualidade e prescrições do projecto, deve ser salvaguardada por acordo (contrato) entre o dono da obra e projectista durante a elaboração do projecto. O que acontece é que as pessoas limitam-se a ter o projecto e apenas “arranjar” um pedreiro para conduzir a obra. Este é exactamente um dos câncros da auto-construção no nosso pais. Muitos destes “pedreiros” mal sabem ler uma planta de armaduras! Eles precisam de orientação e acompanhamento! Por isso, não pense que “esteja a gastar” contratando alguém competente (mesmo que sazonalmente) para lhe supervisionar a obra, se quiser edificar algo duradouro!

Outro aspecto crucial e que praticamente “nenhum” Projectista fornece ao cliente é o orçamento da obra. Esteja atento e solicite ao seu projectista que lhe faculte esse documento juntamente com o projecto, de modo a saber quais as quantidades necessárias de materiais e o valor global da sua obra. Forneço aqui aos Projectistas e Donos de obra interessados, um “Mapa de quantidades-tipo”, com as “unidades discretizadas”, ou seja, 1 m3 de betão é apresentado decomposto em sacos de cimento, areia e brita, etc. Isto serve para facilitar a compreensão do Dono da obra, relativamente as quantidades de materiais necessárias para cada etapa da sua auto-construção. (Divulgue pelos seus “companheiros de armas” e, se não perceber algo, não exite em contactar-me). (continua........)

01 maio 2008

ARQUITECTOS E ENGENHEIROS-”O problema do vestido”

Antes de iniciar a abordagem de assuntos concretos que afectam o sector de construção e não só, gostaria de dedicar algumas linhas a esta classe profissional que tem em suas mãos, a tarefa árdua de materializar um dos elementos cruciais ao desenvolvimento: Infraestruturas!
Este é um sector em que se trabalha arduamente, mas regra geral, se aufere “pouco”…. É mais fácil progredir na vida sendo Economista ou Jurista, do que propriamente Engenheiro ou Arquitecto! Esta situação não se restringe apenas a Moçambique, e verfica-se um pouco pelo mundo fora, incluindo paises altamente desenvolvidos, mas há unanimidade em considerar que o nosso caso seja mais dramático!
Porém, não é sobre rendimentos e “profit” destes profissionais que quero falar! Pretendo dedicar este post a relação profissional entre ambos, quantas vezes “azeda”.
Ocorrem-me, para esse efeito, vários “ditos”, que ilustram essa “celeuma”, esse estado de “paz armada” ou se quiserem “guerra passiva” (ou activa??):
Em tempos lá idos de estudante, o venerado Prof. Carmo Vaz, terá afirmado, em “amena cavaqueira” que, “enquanto os arquitectos não se consciencializarem que, não podemos ter uma viga assim “solta” no ar, nós sempre teremos problemas”. Outra expressão memorável proferida por um Arquitecto (Rodrigues), é que “os engenheiros não passam de um bando de parasitas dos arquitectos” (esta até hoje ainda não percebi). É comum dos arquitectos ouvir-se ainda que, “os engenheiros são uns quadrados”. Eu concordaria com esta ultima, não propriamente com a carga pejorativa que esta expressão transporta, mas sobretudo com a “versatilidade” dessa forma geométrica! Nós vivemos do rectangulo (e sua forma particular, o quadrado), isso é um facto!…. “Estruturalmente” falando, essas formas geométricas encorpam o util e o agradável! Conferem-nos não só, óptimas caracteristicas resistentes, mas também, facilitam o processo constructivo. Muitos arquitectos, se calhar, ainda não se aperceberam que, também vivem dessas formas geométricas! Ninguém anda por ai a projectar “a toa”, salas ovais ou circulares, arcos em abóbada, etc! Essas surgem sempre, em minha opinião, como formas “arrojadas”! Provavelmente, a partir daqui, deveria comecar a ser dada uma nova abordagem a este argumento do “quadrado”!
Pessoalmente, devo dizer que tenho tantos amigos e colegas profissionais arquitectos, tantos quantos engenheiros! Não devo dizer que nunca tive “divergências”, mas asseguro que elas sempre ocorreram num espirito altamente profissional, e tendentes a aproximar “diferenças” e encontrar consensos! Devo dizer que, nem sempre é fácil, mas com o espirito aberto, qualquer das partes tem sempre oportunidade de aprender e de “sair a ganhar”!
Ocorre muitas das vezes, um “problema de perspectivas” ao abordar seja um assunto arquitectónico ou estrutural. E falando em “perspectivas” deixa-me abrir aqui um parentesis! Uma coisa que me deixa completamente “passado” (e provavelmente a muitos de vocês também) e que, todas as vezes que tenho que sair com a minha esposa para um casamento, ela tem que comprar um novo vestido, mesmo que o tenha feito numa semana anterior, para uma ocasião similar! A resposta que obtenho é que, “as pessoas já me viram com aquele vestido”! Para mim esta é uma justificação “descabida” porque na minha “perspectiva”, o mais interessante nessa cerimónia seja eventualmente “bater um bom papo” com o amigo que não vejo há algum tempo ou tomar um bom whiskey, sem a minima das preocupações, enquanto que na “dela”, o charme talvez esteja mesmo ai na “indumentária”. É possivel que, entre arquitectos e engenheiros, a questão se resuma a este “problema do vestido”
O que acontece normalmente, é que regra geral, cada um (engenheiro ou arquitecto) fica apenas preocupado com o seu umbigo! Não se preocupa em perceber as razões que outro apresenta porque, “ignoramos” o facto de que “não existe apenas uma solução, para qualquer que seja o problema”!
Eu sou daqueles engenheiros que, de vez em quando, gosta de dar “asas a imaginação” e projectar algumas “coisinhas”. Verdade seja dita, antes quis mesmo ser arquitecto, mas mudei de ideias (e sem ressentimentos) a altura! (Não estou de maneira alguma a legitimar ou promover a minha capacidade de elaboração de projectos….antes pelo contrário, dou sempre “a César o que é de César”!!) E fazer as duas coisas (projecto arquitectónico e cálculo estrutural), permite-me perceber parte do problema! É que uma alteração decorrente do cálculo estrutural, obriga a modificar grande parte das “assunções” /”previsões” do projecto arquitectónico! É exactamente aqui onde começa o “conflito”! E como sempre na vida, o “diálogo” que é um “equipamento bélico” ultra sofisticado e infalivel para resolver divergências, tende a ser substituido por “attitudes radicais” e “unilaterais” de ambas as partes!
Discussões francas e abertas são, profissionalmente, altamente produtivas! Me ocorre agora a memória, o falecido Arqto. Petrov, homem solitário, de muitas andanças pelo mundo fora e que vivia ali mesmo junto ao cruzamento entre as Avs. Mao Tse Tung e Amilcar Cabral, em Maputo! Devo confessar que, das muitas discussões “fervorosas” que “entusiaticamente” tivemos, aprendi imenso e passei a perceber melhor a “perspectiva arquitectónica”….Essas são oportunidades soberanas para “crescermos” profissionalmente, mas que muitos de nós desperdiçamos!
Engenheiros ou arquitectos que se tenham encontrado (ou se sintam) persistentemente em situações “irreconciliáveis” com a sua contra-parte, devem questionar, antes de mais, a sua “habilidade/capacidade de diálogo” e se houvesse um teste para o efeito, deveriam verificar a quantos “courics” anda o seu orgulho (barato)!
Um abraço a todos os “companheiros de armas” e espero ouvir as vossas experiencias “marcantes”, neste contexto!! E mesmo a calhar, vão os meus votos de um óptimo “fim de semana prolongado” do Trabalhador (disse isso mesmo: “prolongado”….Então, custa alguma coisa fazer uma “ponte” “simplesmente apoiada”, entre Quinta e Sexta-feira??)