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27 julho 2012

Maputo – KaTembe: “A Verdade Sobre a Ponte para a Casa da Mãe do Presidente” – Uma Solução Alternativa!!


Não me lembro da quantidade de “seminários de estradas” em que participei, cujo tema assente era a “pavimentação da estrada para a Ponta de Ouro”!! Os números ali apresentados, mostraram sempre com clareza, que não existia tráfego suficiente para justificar esses investimentos!! Mas se forem a notar, em nenhum momento da nossa abordagem condenamos a construção dessa estrada!!

O que temos estado a defender no decurso desta série, é que, nas condições actuais, o Estado Moçambicano não está em posição de enveredar por soluções arrojadas, quando alternativas mais racionais e económicas, estão disponíveis e, em nossa opinião, devem ser exploradas!

Em momento algum contestamos que a população da KaTembe deve ser servida por infraestruturas que permitam a sua rápida mobilidade de e para Maputo. O que está aqui em causa são as opções financeira e economicamente insustentáveis que se querem adoptar. Porque, sejamos francos: a KaTembe é neste momento um “deserto”, com uma reduzida massa populacional, sem produção agrícola ou industrial, sem meios circulantes, sem tráfego!! Por essa via, inclua-se Matutuine, Bela Vista, Ponta de Ouro, etc. Por mais que queiramos esticar a fita de “previsões de expansão e crescimento futuros”, neste momento, esses locais todos não reúnem uma “base de sustentação” que permita a expansão necessária para reaver os investimentos que se pretendem fazer com a construção da ponte Maputo-KaTembe!! É preciso que haja essa “base de sustentação”, é preciso que haja esse “ponto de partida”!! Se vamos criar algo a partir do nada, então temos que ter noção de limites!! Não vamos construir uma ponte de 600 milhões de dólares, para um sítio onde não existe nada!!

Mas podemos fazer uma ponte de 20 milhões, 30 milhões de dólares (50 milhões de dólares já seria discutível), para impulsionar o desenvolvimento que pretendemos nessa região, deixando com clareza que há sacrifícios que devem ser consentidos nesta altura, até que a situação económica do país permita a adopção de soluções que hoje não estão ao nosso alcance!! O sucesso da KaTembe, que virá a permitir a sustentabilidade da construção de uma ponte multimilionária, reside na preposição que a Katembe seja habitada “sem limites para a sua expansão”!! A validade deste argumento, de nada depende do que venha a acontecer nem em Matutuine, nem em Bela Vista, nem na Ponta de Ouro!! A KaTembe deve ser olhada como uma entidade que depende apenas de si própria, porque para que uma ponte Maputo-KaTembe seja viável, deve existir "tráfego diário" para os dois lados da baia. Tal só será possível, se a KaTembe for massivamente habitada e, melhor ainda, se tiver actividade industrial e comercial. Que não se pense que uma ponte Maputo-KaTembe será viável com tráfego mobilizado por "turismo de fim de semana, Páscoa ou fim do ano", como se está a querer vender!! Isso não irá acontecer!!

É nessa perspectiva que propomos um plano alternativo para a urbanização não restritiva da KaTembe que, conforme veremos nas próximas linhas, será muito menos oneroso, fará um melhor aproveitamento do Projecto da Circular de Maputo, permitirá o desvio de tráfego desnecessário que doutra forma iria para o centro de Maputo, e fundamentalmente, permitirá que, na eventualidade da construção futura do porto de Techobanine, unidades industriais em Matutuine, etc, qualquer carga a ser transportada de e para esses locais, tenha acesso directo a EN4 (África do Sul), EN2 (Suazilândia, África do Sul) e EN1 (resto do país) sem ter que perturbar o tráfego na cidade de Maputo.

1) Estrada Maputo-KaTembe
Conforme ilustrado na figura acima, esta estrada iniciaria na intersecção com a EN2 depois da ponte da Matola-Rio e antes de Belo Horizonte, perfazendo uma distância de aproximadamente 10Km até ao centro da KaTembe. Este troço, entrando pela parte Oeste da KaTembe se iria intersectar com outro vindo da actual ponte-cais, numa extensão de aproximadamente 8 Km, servindo assim de bases para a execução de malhas quadradas, que permitiriam a urbanização da KaTembe em toda a sua extensão, tanto em direcção à Matola-Rio (Belo Horizonte), como em direcção ao Oceano Indico no extremo Este, evitando que todo o protagonismo da vila esteja na secção que faz frente à cidade de Maputo.
Esta estrada teria uma ponte sobre o rio Umbeluzi, com aproximadamente 250m de comprimento e outra sobre o Rio Tembe, com cerca de 750m de extensão. Usando tabuleiros compostos ou outras soluções que se considerem baratas, estas pontes não custariam acima de 10 milhões e 30 milhões de dólares, respectivamente, visto que não teriam que ter dimensões monumentais para permitir a passagem de navios de grande calado debaixo dos seus tabuleiros. Na entrada a Maputo, esta estrada faria o devido uso da Circular de Maputo, a partir do nó da Machava.

2)  Marinas
Seriam construídas duas Marinas modernas, onde hoje se situam as pontes-cais do lado de Maputo e do lado da KaTembe. Estas estruturas deveriam ser concebidas não só para a atracagem de ferry-boats, mas também com uma área comercial, restaurantes, as marinas propriamente ditas para a ancoragem de pequenos yates, etc, servindo assim para promover o turismo de mar (pesca/mergulho) dos dois lados da baía. Sem querermos ser muito arrojados, estas duas infraestruturas poderiam ser executadas com uma quantia total de 30 milhões de dólares, que seria complementada com uma verba de 5 milhões de dólares para a aquisição de 2 ferry-boats modernos.
Por mais que um dia, a ponte Maputo-KaTembe seja construída, é preciso tomarmos em conta que a travessia por ferry-boat deverá ser mantida, por ela emprestar um cunho turístico particular à nossa cidade capital!! Por outro lado, a grande maioria da populacao da KaTembe não tem viaturas particulares, o que significa que, para se deslocarem ao trabalho na baixa ou centro da cidade de Maputo, nenhuma ponte lhes fará melhor serviço que o ferry-boat.

3) Estrada Catembe-Ponta de Ouro
A estrada Maputo-KaTembe, incluíndo a ramificação primária no interior da vila da KaTembe compreenderia uma extensão total de aproximadamente 35Km. Adicionados a mais 115 Km até à Ponta de Ouro, este projecto teria uma extensão total de 150Km de estradas. Uma estrada de 2 faixas, com revestimento duplo, trabalhos de drenagem, etc, está avaliada em cerca de 1 milhão de dólares/Km, o que indica que, em termos de estradas, o investimento seria de aproximadamente 150 milhões de dólares para todo este projecto.

4) Custos Totais
- Estrada Maputo-KaTembe: 35 milhões USD
- Ponte sobre o Rio Umbelúzi: 10 milhões USD
- Ponte sobre o Rio Tembe: 30 milhões USD
- Marinas Maputo/KaTembe: 30 milhões USD
- 2 Ferry-Boats: 5 milhões USD
- Estrada KaTembe – Ponta de Ouro: 115 milhões USD
- Contingências: 25 milhões USD
- TOTAL: 200 milhões USD

Se tomarmos em conta que, uma e outra obra de arte terá que ser construída no troço KaTembe-Ponta de Ouro, vemos que com um valor global não superior a 250 milhões de dólares, todo este projecto pode ser executado. A expansão da KaTembe executada nestes moldes, possibilitará a sua ligação tanto a Maputo como a Matola, o que aliada ao Projecto Circular de Maputo, que possibilitará o desenvolvimento de novas zonas habitacionais, abriria caminho à construção de uma verdadeira “Região Metropolitana de Maputo”, devidamente interconectada!!

O aspecto particular desta “solução alternativa” é que não estaremos a incorrer em gastos directos excessivos com a construção, que serão posteriormente exacerbados com valores exorbitantes para a manutenção, como se observará se se avançar unilateralmente para a construção da ponte Maputo-KaTembe!! Por outro lado, é falacioso dar-se constantemente primazia ao “centro da cidade de Maputo” quando se sabe de antemão que a grande maioria da sua população vive nos seus arredores. Falo dos bairros de Jardim, Benfica, Magoanine, Malhazine, Machava, as várias Matolas, Belo Horizonte, Tchumene, e por aí fora!! Toda esta população, que acreditamos irá melhorar gradualmente o seu poder de compra, tendo interesses (turísticos) na KaTembe ou Ponta de Ouro, estará muito melhor servida por esta proposta que aqui apresentamos!! Aos citadinos “ricos”, o sacrifício que se lhes pede, será contornar a baía numa extensão de meros 25Km, para desfrutar os seus fins de semana do lado da KaTembe!!

A nossa proposta está aqui feita! Se tem outros números ou sugestões alternativas, não se coíba de apresentá-los, antes de prosseguirmos para a conclusão desta série, no próximo artigo!!

26 julho 2012

Maputo – KaTembe: “A Verdade Sobre a Ponte para a Casa da Mãe do Presidente” – O Preço da Ignorância!!


Aquando da última alteração curricular na UEM com vista a “Bolonização do Sistema”, vozes racionais da sociedade vieram a terreiro expor os seus pontos contra aquela desastrosa medida! Quem devia ouvir, fez “ouvidos de mercador” na altura, mas o tempo tratou de pôr tudo em pratos limpos!! Uma dessas vozes “dissonantes” foi a “Ordem de Engenheiros de Moçambique”!! Não haja dúvidas que, quando a UEM, depois do “caldo entornado” fez o seu “recuo estratégico”, a imagem desta e de outras organizações da sociedade civil, que souberam estar do “lado certo da história”, saiu reforçada!!

Hoje estamos perante um investimento desastroso de “Obras Públicas”, e esta organização que nos parece (ou devia parecer) parte interessada, ainda não teceu qualquer consideração, ainda não publicou qualquer estudo por si elaborado, referente ao tráfego actual existente para a Katembe, suas projecções futuras, as possibilidades reais de retorno deste investimento e fundamentalmente, vias alternativas que deveriam ser exploradas, para o bem e sanidade financeira desta Nação! “Vai ver que alguns destes senhores mantêm a boca fechada, porque esperam alguma migalha de trabalho para as suas empresas privadas, no decorrer destes projectos que tendem a cair como cogumelos depois de uma chuva” – diria o Joãozinho!!

Pelas minhas andanças por vários países, tenho notado com frequência estradas estreitas e velhas, fazendo o contorno total de obstáculos naturais, como montanhas, lagos, afluentes de rios, etc. Essas estradas, hoje encerradas, foram substituídas por troços novos, unindo directamente os dois pontos geográficos por infra-estruturas imponentes como túneis, pontes, etc. Um aspecto curioso é que, quando esses países avançaram para a construção daquelas infraestruturas, hoje caducas, não eram países pedintes, não recebiam ajudas para reforçar os seus orçamentos de Estado. Eram, de facto, países numa fase muito acelerada do seu desenvolvimento!! Mas entenderam o que era económico-financeiramente racional para salvaguardar os interesses dos seus Estados!!

“E nós, o que fazemos?? Donde e de quem aprendemos??”

A questão da ponte Maputo – KaTembe, até prova em contrario, é um investimento desastroso, grave e que vai prejudicar o país, pelas gerações vindouras!!

Um erro grave que se comete nestas análises, é olhar para o “valor da empreitada” (735 milhões de dólares), como o “custo da obra”!! Esse não é o “custo da obra”!! O custo da obra deriva daquilo que se intitula de “LCC – Life Cycle Cost”, ou seja, os custos totais que serão incorridos no decurso da vida útil da infraestrutura!! E aqui é que começa (ou deveria começar) a discussão!!

1) Qual é a vida útil deste empreendimento?
Projectos desta envergadura costumam a ser concebidos numa perspectiva de 100 anos! Essa é a teoria, mas a realidade tem sido outra!! Atendendo que a obra será implantada num ambiente marinho severo, sujeito a um forte ataque de cloretos e consequente aceleração da corrosão de armaduras do betão armado, fortes intervenções serão inevitáveis ao cabo de 20, 30, 40 anos! Pintura de elementos metálicos da estrutura, como cabos, guardas, parapeitos, etc, terão que decorrer a cada 10 anos no mínimo, até que, depois dos 20 anos, vários desses elementos começarão a reclamar por total substituição!

Porque a deterioração do betão está associada à penetração de substâncias químicas como cloretos, sulfatos, alkalis, etc, presentes na água do mar, hoje em dia utilizam-se materiais pozzolánicos juntamente com o cimento, para reduzir a porosidade e permeabilidade do betão, mas também aumentar a sua resistência à compressão, dentre outras vantagens. Desse rol de pozzolanas, contam-se “fly ash” (produzido em centrais térmicas movidas a carvão mineral), “blast-furnace slag” (produzido em siderúrgicas de aço), “sílica fume” (produzido durante o processamento de silicone). Nenhum destes produtos está correntemente disponível no nosso mercado, o que significa que, na melhor das hipóteses, esta ponte será inteiramente construída com “Cimento Portland Normal”, produzido aqui, ou infalivelmente vindo da China. Deste modo, devemos tomar que, aos 50 anos da sua vida útil, esta obra teria que sofrer uma “reabilitação de grande vulto”, para que não colapse nos anos imediatamente a seguir!! Se a “elaboração do projecto” e a “execução da obra” serão feitos por entidades estrangeiras, então não haja dúvidas, que a “reabilitação da obra” terá que ser feita por “ECMEP’s de outros países”.  Estes custos todos, associados às consultorias para estas reabilitações, têm que ser inclusos para a definição do “real custo da obra”. Nesses termos, em quantos biliões de dólares ficamos??

2) Retorno do Investimento
Um argumento que tem sido usado e abusado em conexão a esta obra é “desenvolvimento”. Mas “desenvolvimento” não é um conceito vão, desligado de qualquer racionalidade e “avaliação económico-financeira”!! Ou seja, se só pela execução da empreitada, o país precisa de despender 735 milhões, se ao longo da vida útil da obra, o país recuperar apenas 235 milhões de dólares através de portagens e outras tarifas, e mesmo que alguns “gatos pingados” atravessem a ponte para ir passar os fins de semana do outro lado da baía, não estaremos a desenvolver!! Estaremos a regredir, estaremos a retroceder, porque o país terá incorrido numa perda directa de 500 milhões de dólares!! E aqui, não estão sequer incluídos os custos de manutenção e reabilitação como atrás referidos, que evidentemente devem ser trazidos à equação.

É como um indivíduo que vive na cabana e decide comprar um Mercedes-Benz. Ao longo da vida útil da viatura, o indivíduo será “espremido”  pelos elevados custos de manutenção, ao ponto de, nem dinheiro para pão e salada de alface sobrar!! Ou seja, quando o Mercedes estiver a ser rebocado para a sucata, o indivíduo terá muita sorte se ainda estiver na cabana. É que, nestas coisas de DUAT’s há prazos a serem cumpridos para efectuar a construção, sob o risco de lhe ser retirado o terreno!! Agora, se o indivíduo se decide por um “Corolla”, não só poupará em gastos com combustíveis e manutenção da viatura, enquanto se locomove mais rapidamente para o trabalho e outros destinos, como também poderá fazer poupanças, que lhe permitirá subsequentemente a investir noutras áreas!!

“A analogia aqui com a ponte Maputo – KaTembe encaixa perfeitamente como uma luva”!!

Antes de falarmos de “desenvolvimento” devemos olhar para os números!! É preciso acabarmos com esta cultura em que “o clímax último do sucesso” se observa quando se corre a anunciar que este ou aquele crédito bancário (financiamento) foi assegurado!! No caso desta ponte, onde está o estudo de viabilidade económica?? Qual é o volume de tráfego corrente?? Qual é a sua previsão de crescimento?? Qual é o período de vida útil da obra?? Que receitas directas serão amealhadas nesse período??

Esta é a discussão que se precisa neste momento, para se entender a racionalidade deste projecto!! E, se os números não batem, então há que providenciar explicações porquê se corre para a execução do mesmo!! Serão comissões similares àquelas que permitiram a um determinado “Grupo” adquirir participações num banco “daqui”, aquando da operação financeira de reconversão de Cahora-Bassa??

Fique atento, porque a saga continua!!

25 julho 2012

Maputo – KaTembe: “A Verdade Sobre a Ponte para a Casa da Mãe do Presidente” – Introdução!!


Nestes últimos dois mandatos temos vivido uma presença constante da necessidade de superar os “records” estabelecidos pelo anterior PR. Não que sejam “records” necessariamente de acções honráveis, mas grosso modo, mundanas, evitáveis, despicáveis. Vimos isso em primeira mão com a renovação de toda a frota de viaturas protocolares da Presidência, o despesismo exponencial do Estado, o aluguer de helicópteros para deslocações da ordem de 20Km, a atribuição do seu nome a infra-estruturas públicas,  o seu empresariado de sucesso, de seus filhos e sequazes associados, só para citar alguns exemplos. Penso que, apesar de alguns “prémios comprados”, o que vai ser difícil de bater mesmo é o “Prémio Mo Ibrahim”!!

Se estão lembrados, em 2004, Chissano “mandou” asfaltar a estrada para a sua aldeia natal, num exercício financeiro que custou ao Estado Moçambicano através de créditos do BADEA (Banco Árabe para o Desenvolvimento Económico de África) a modesta quantia de 10 milhões de dólares. Mas Guebuza precisa de superar esse “record” também!! Não com uma estrada, mas com uma mega-ponte para sua aldeia natal, cuja construção esta avaliada em 735 milhões de dólares.

Este fenómeno de incumbentes da Presidência de uma República se preocuparem em construir estradas ou pontes para as suas aldeias durante a vigência dos seus mandatos, só acontece em países governados por regimes “marcadamente tribalistas”!! Regimes esses que não têm um "plano nacional de desenvolvimento", com uma sequência de prioridades claramente definida que, independentemente do partido ou indivíduo no poder, vai sendo executado integralmente.

A construção de uma estrada ou uma ponte é regida por uma determinada lógica. Essa lógica nunca está dissociada da rapidez do retorno dos investimentos, na forma de ganhos monetários cobrados por taxas como por exemplo portagens, mas existem outras formas como a avaliação do “custo-beneficio”, que inclui normalmente a redução de despesas que seriam incorridas pelos utentes da via, como o custo de combustíveis, pneus, manutenção das viaturas, tempo dispendido na jornada, etc. É com base nessa avaliação, que se decide na execução ou não de um ou outro projecto. É com base nessa avaliação, aliada ao volume de tráfego rodoviário existente, que se decide, por exemplo, se uma estrada de terra-batida deve ser asfaltada ou não.

Conforme se sabe, a KaTembe tem uma população de cerca de 20 mil habitantes. Desses, uma ínfima porção tem a necessidade de travessia diária para exercer as suas actividades na cidade de Maputo. Dessa ínfima porção, uma “microscópica franja” é que possui viaturas particulares, o que mostra que o retorno destes investimentos não foi, em momento algum equacionado, no processo decisório para a execução desta obra!! Podíamos dizer que, “por causa do rápido escoamento do que ali é produzido, deveríamos avançar com a execução da ponte”!! Mas a KaTembe, nem de hortícolas abastece a cidade de Maputo!! O único registo de produção agrícola naquele local é de “batata de polpa alaranjada” por uma unidade ociosa da F.A.D.M, que não está a pensar em vender o produto, mas suprir as suas próprias necessidades nutritivas!!

Vai-se atirar ao mar 735 milhões de dólares só para satisfazer os interesses aldeio-comunais de um dirigente! Ele não vai pagar a obra com o seu dinheiro!! A KaTembe não tem produção, nem tráfego para retornar esses investimentos, 300 anos que passem!! Maputo não tem produção, nem tráfego para retornar esses investimentos, 100 anos que passem!!

Mas há outras alternativas racionais que podem ser exploradas!! Fique atento ao próximo número!!

27 setembro 2011

X Jogos Africanos – My Views on Our Sports’ Quagmire!!!

Terminaram-se os X Jogos Africanos realizados na nossa capital, Maputo! Foi um alívio colectivo que, mesmo à porta do evento, as infraestruturas fundamentais estivessem concluídas, porque penso que teria sido um desastre completo se, enquanto as competições já estivessem a decorrer, andássemos a correr com pás, prumos e betoneiras de um lado para o outro!! Felizmente isso não aconteceu e é preciso dar os louvores as pessoas directamente envolvidas nesse processo!!

Se o “básico” esteve definido antes do “tiro de partida”, já os detalhes falharam em vários aspectos, o que vejo como “consequência natural de uma programação por cima do joelho”!! Num evento complexo como este, em que as acções prioritárias rondam o infinito, há coisas essenciais que, quando são esquecidas na fase de planificação, só são descortinadas quando o “objecto maior” já está executado!! Se se tratar de equipamento e apetrechamento de um edifício, é preciso que o mesmo já esteja concluído, as pessoas andem pelos seus compartimentos e notem que “Epah, veja que nos esquecemos de pôr aqui um painel televisivo”!! Hoje, estes equipamentos de tremenda utilidade diária e que serviriam de “porta de lançamento” e dar a conhecer o país aos nossos visitantes, encontram-se a preços de banana em qualquer mercado de produtos electrónicos!! Mas não é possível ver estas coisas, se terminarmos a última mão da pintura, umas horitas antes da corrida começar!!

Mas, o que eu acho ter sido inconcebível foi não ter a “sala de comunicações” pronta para a difusão do evento principalmente pelos média internacionais e nacionais (apesar destes últimos levarem vantagem em “como se virar”) ainda na véspera do evento e ter sido criado um website para cobrir de forma exaustiva e actualizada, o decorrer dos Jogos!! Aqui é preciso dar “as mãos e os pés à palmatória” e encontrar pessoas para “perfilar” não me parece ser tarefa árdua!!

No entanto, é preciso perceber que, sem descurar o avanço em termos de novas infraestruturas, o envolvimento dos países na organização de eventos desta natureza visa essencialmente “ganhos desportivos”!! Trago aqui à memoria, os Jogos Olímpicos de Beijing 2008 ganhos pela China, o Mundial de Futebol França-1998 ganho pelo pais organizador, o Mundial de Futebol Sub-17 realizado há poucos meses e ganho pelo país organizador (México) e, falando propriamente dos “Jogos Africanos” temos o Egipto – 1991 , África do Sul – 1999, Nigéria – 2003, que organizaram e venceram os respectivos Jogos!! “Vencer é um imperativo sempre presente” e também não é por não vencer que “passamos a não valer nada”, mas quando o meu país é dado a vencer apenas 13 medalhas e nenhuma delas de ouro, um indivíduo fica no desamparo e sem saber se “se esconde e chora sozinho no sótão” ou “se saiu correndo nu pela rua abaixo gritando MAMAWUUUUÉÉÉÉÉÉÉÉÉ”!!!

E aqui, “é preciso fazermos uma análise desapaixonada ao estado a que chegou o nosso desporto nacional”!!

Essa é coisa que vou fazer no próximo post, mas como um bom patriota sugiro às autoridades desportivas (de hoje ou as que virão amanhã) para que se adopte como “Princípio Sagrado de Estado”, que a nossa candidatura para a organização deste tipo de eventos só seja efectivada, uma vez reunidas as condições de sucesso desportivo, assegurada a maturação de talentos nacionais com cartas dadas e que já tenham sido medalhados em competições organizadas por outros!!

30 março 2009

Orgãos de Informação Devem Aprender a Informar!!!


Antes de mais, gostaria de congratular os “Mambas” pela excelente exibição de ontem!! Ao contrário do “discurso oficial”, devo discordar completamente da postura de “low expectations” que se insiste em apresentar! As pessoas comemoram este empate, e o discurso aponta para isso, como se Moçambique tivesse entrado para o encontro, com a certeza de sair derrotado!!

Nos jogos em casa devemos sim e sempre assumir o protagonismo e o objectivo deve ser a “vitória”, independentemente de quem sejam os nossos oponentes!!

Por causa desta nossa postura de “low expectations” podemos dar a impressão de sermos um povo que fica satisfeito com tudo o que se lhe põe no prato! Digo isto a propósito da actuação claramente tendenciosa da equipa de arbitragem que, salvo erro, ainda não sofreu qualquer contestação dos nossos organismos nacionais do futebol junto dos fóruns apropriados da CAF e quiça da FIFA! É preciso repudiar este tipo de arbitragens sob risco de passarmos a impressão de aceitarmos tudo, aina mais, na nossa “própria” casa!

- O árbitro influenciou o resultado quando ainda no decorrer da primeira parte, abdicou de admoestar o segundo amarelo ao jogador nigeriano Obbina Nawery que travou um atacante moçambicano em clara falta t
écnica!
- O árbitro influenciou o resultado quando anulou dois golos moçambicanos, um dos quais há evidência suficiente de ter sido limpo!
- O árbitro influenciou o resultado ao não assinalar penálti em três ocasiões consecutivas em que a bola bate na mão (ou vice-versa) do defesa nigeriano no interior da área!!

Perante estes factos, não devemos apenas nos limitar a comemorar este “mal menor”, mas a FMF deve repudiar veementemente a roubalheira destas arbitragens que entram em campo já instrumentalizadas e prontas a industriar um vencedor!! “Quem não chora não mama” e a FMF tem que pôr a boca no trombone!!! Já o devia ter feito ontem!!

Mas, o motivo desta postagem prende-se com a informação veiculada pela RM no fim do jogo referindo que, “por imperativos de agenda, o Presidente da República, não pôde se fazer ao Estádio da Machava!! No entanto, como forma de apreço e apoio aos Mambas, sobrevoou o estádio por duas vezes”!!!

Bom, a informação foi passada nestes moldes e esta forma de informar, é muito problemática!! Muito problemática porque, não refere sequer, em que circunstâncias é que o PR sobrevoou o recinto e isto abre sempre um campo fértil à especulação!!

O ouvinte vê-se confrontado com perguntas do tipo:
“Terá o PR, na impossibilidade de se fazer presente, optado por entrar numa aeronave e sobrevoar o estádio para mostrar o seu apoio à equipa do país que dirige”??

“Para além da pouca efectividade dessa forma de apoio, não terá sido isso, um bocado (ou muito) elitista?? Não será isso atitude própria das estrelas de Hollywood que, todos sabemos, fazem-no porque “cagam” milhões de verdinhas”?

“Numa altura em que se fala de crise e necessidade de austeridade, porquê o PR tinha que sobrevoar o estádio, em vez de assistir o jogo em casa pela TV, ou mesmo dirigir-se ao estádio de carro”??

“Não será isto, um claro e extravagante desperdício dos parcos recursos do país”??

Estas perguntas todas ganham estatuto de “legítimas”, na medida em que os nossos serviços de informação pecaram por não dar uma informação “completa”! Este momento “bonito” providenciado (mesmo que espiritualmente) pelo PR à massa presente no estádio, quando de facto estava a caminho da Swazilândia, onde está a participar desde hoje, na cimeira que vai decidir o “previsível boicote” ao governo de Rajoelina (esse é outro assunto), acabou correndo o risco de ser muito mal interpretado, pela forma deficiente que os nossos orgãos de informação desempenharam as suas tarefas!!

É altura destes senhores, que se alimentam pelo dinheiro dos nossos impostos e taxas, começarem a realizar o seu trabalho como deve ser!!!

26 agosto 2008

O Triunfo dos Porcos!!

“Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros!!”
George Orwell in Animal Farm

O assunto do dia é a recente “chicotada psicológica” de Eneas Comiche, Autarca que, conforme a avaliação unânime de vários sectores da sociedade civil moçambicana e da capital do país em particular, estava a pôr o “comboio nos carris”!

Muito tem sido dito e especulado a este respeito e, como um “worried citizen”, me sinto compelido a partilhar alguns “centavos” do meu humilde ponto de vista. Há aqui 4 pontos fulcrais que julgo necessitarem de um debate urgente:

1) Conforme informação avançada pelos media, vozes sonantes no panorama politico do partido no poder, afirmam em uníssono que “Comiche, de resto trabalhou bem, mas falhou na solução dos problemas das bases”. Alguém sabe por acaso o que significa ou quem são essas tais “bases”?? Está claro, mesmo para o cidadão mais incauto que, as ditas “bases”, não passam de “interesses de membros do partido”, as habituais “portas à cavalo”, o “nepotismo”, “clientelismo”, “favoritismo” e todos esses “ismos” promíscuos que permeam e se cristalizam na nossa sociedade, a ponto de passarem a ser considerados como, “processos normais”! Estarão com isto, os nossos camaradas referindo que, “dentre os animais, há uns que sejam mais iguais que os outros??” Que há resolução de problemas para os “telhados” e para as “bases”?? E o cúmulo disto tudo é que, ao falarem nestes termos, de “boca bem cheia e aberta” e sob o olhar impávido e sereno das nossas instituições judiciais, estes senhores nem sequer se estejam a dar conta que estão a violar a “Constituição da República”! O Artigo nº 35 (Princípio da universalidade e igualdade) refere e passo a citar:
“Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou opção política”.
Nada vem aqui indicado de tratamento diferenciado e previlegiado, conforme o cidadão pertença ou não às “bases” do partido que esteja no poder, como estes senhores estão a “reclamar”, a ponto de parecer que algum dos seus “direitos adquiridos” lhes esteja a ser limitado e negado.

2) Outra afirmação que praticamente endorsa a “boa governação de Comiche” é aquela que refere que: “nos trabalhos que ele fazia, sentia-se que o partido não sabia”! Fica claro para nós, pacatos cidadãos, que Comiche era “one man’s mind”, que pensava por si e agia de acordo com a lei e com as posturas municipais, coisa que esta gentalha parece não estar habituada e pelos vistos não aceita! Portanto, pode se depreender que o perfil de Autarca que estes camaradas querem é o de um autêntico “pau-mandado”! Que a cada vez que o presidente do Município for ao “Café da Esquina” tenha que informar ao Partido. A este andar, não admira que, caso seja eleito pelo eleitorado, Simango tenha que mandar emails ou faxes à sede do partido, a cada vez que for usar o banheiro do Edificio Municipal!!

3) Esta sociedade civil sabe que, em eleições internas recentes desse mesmo partido, os resultados foram anulados e o candidato vencedor fora posteriormente escorraçado, como forma a satisfazer o que as suas lideranças pretendiam. Se o mesmo critério ocorresse actualmente, veriamos Simango ter o mesmo destino. Portanto, o silêncio “ensurdecedor” dessas lideranças prova que ela se conforma com o “outcome” dessas eleições internas. Acerca disto, gostaria de dar um pequeno olhar à composição do nosso actual elenco governativo: quando se fez aquela autêntica “salada russa” de ministros e ministérios, a ideia inicial que pairou entre nós, foi que a “limpeza geral” tinha como objectivo “imprimir uma nova dinâmica” (como a Zenaida gosta de ironizar), mas hoje, vistas bem as coisas, a motivação real disso tudo era “deter o poder absoluto”. Portanto, ponho um sindicalista a cuidar da Agricultura, um agrónomo nas Obras Públicas (e por ai adiante), e porque esses indivíduos não entendem dos seus pelouros, “eles fazem o que eu ordenar” e eu sem possibilidades reais de obter desafios ou confrontação de posições! Nessa ordem de ideias, Comiche, que abertamente denunciou os efeitos contraproducentes da dupla Administração, (e por essa via, desafiando o poder instituido, que criou e pôs em prática essas medidas) perdeu o perfil de “pau-mandado”, de “yes-man incondicional”, de apóstolo do “chefe nunca está errado” e passou a ser um “homem errado, no lugar errado”! É possivel que o agora escolhido, seja um homem remoto-controlado, que funcione como vem indicado no catálogo!

4) Este processo todo, manda uma mensagem clara a esta juventude, grande parte dela constituinte do actual elenco de Comiche e cujos resultados do trabalho zeloso já estão a ser vividos pelos munícipes:
- “Que a governação em Moçambique, ainda serve apenas para acomodar os interesses partidários, das elites governativas e dos parasitas a elas associadas”.
- “Uma vez não fazendo parte das bases, que o povo se lixe, visto que, tudo o que for feito a seu respeito, não entra na equação de avaliação final do desempenho do governante”!
- “Que quem quiser agir de acordo com a legalidade e a ordem institucional, passa a ser um individuo indesejável”.

No entanto, esta é uma oportunidade soberana para as gentes de Maputo, que pouco ou nada sabem dos feitos do ministro sorridente, darem uma verdadeira lição a este partido e mostrá-lo que está completamente “out of touch” do seu eleitorado! Que qualquer governação se limita única e exclusivamente a servir ao povo e não aos interesses de uma minoria ociosa e que julga que tem o rei na barriga!

Imbuidos desse espirito ardente de cidadania participativa, esta é altura de nos levantarmos e exigirmos uma governação que esteja comprometida e em sintonia com os interesses da maioria, dos “telhados” e não das “bases”!!