24 outubro 2008

Temos que Mudar Urgentemente a nossa “Cultura” de Prevenção e Combate a Incêndios na Prática corrente em Engenharia Civil!


Não vou, nesta postagem, especular sobre as razões que estejam por detrás dos incêndios que têm assolado vários edificios ministeriais e, curiosamente, a sectores ligados às “finanças”! Isso, tem sido tarefa de meio mundo, nestes últimos dias!

Estando há mais de uma década envolvido na elaboração de projectos ou construção de infraestruturas públicas e privadas (escolas, hospitais, edifícios públicos ou habitacionais, etc), devo afirmar categoricamente que não existe na nossa prática corrente de Engenharia Civil, a cultura de prevenção e combate a incêndios! Quando muito, o que se faz é “ornamentar” este e aquele local com uns extintores, muitas das vezes que ficam ali anos e anos “abandonados” sem serem substituidos ou beneficiarem de manutenção alguma. Num e noutro caso, costumam ver-se alguns “hidrantes” isolados, num puro exercício “cosmetico”, sem considerar uma estratégia coerente de intervenção num hipotético cenário de emergência. Quando nas poucas excepções, os projectistas consideram componentes de combate a incêndios e, como é habitual “não haver dinheiro”, esses inequivocamente são os primeiros elementos do projecto a serem sacrificados pelos donos-de-obra, na maior parte dos casos, o próprio Estado!

A foto retirada do “Noticias” de ontem é bastante ilustrativa do que se está a passar no sector de construção civil aqui em Moçambique. Apesar da sua recente construção, o edifício da Direcção Nacional de Contabilidade Pública e Orçamento mostra que não foi projectado considerando as normas mínimas de segurança aceitáveis para a evacuação em caso de incêndios ou qualquer outra emergência! Como é que se explica que, pelo facto de haver um incêndio no elevador, prontos, já não haja mais vias de escape, que não seja pela janela e com a ajuda de um guindaste? E se o edifício tivesse 20 ou 50 andares?

Uma norma básica e fundamental na arte de “boa construção” recomenda que as vias de acesso ou escape de um edifício, não sejam contíguas! Ou seja, a caixa de escadas normais, não pode estar no “mesmo local” que a caixa de elevadores, de modo que, na impossibilidade de utilização de uma delas, a outra esteja acessível! O mesmo critério é válido no caso da localização das “escadas de emergência” em relação as “escadas normais”, sendo estas muitas das vezes construidas na parte traseira dos edifícios e feitas de material metálico dado que à altas temperaturas o betão fragmenta mais facilmente.

Nunca entrei no edificio em apreço, mas o cenário vivido e a imagem ilustrativa (que me poupa mais do que mil palavras) falam por si em relação a existência ou não destas componentes de prevenção atrás referidas.

Importa notar também que, alguns edificios antigos têm os sistemas de combate a incêndios, mas na maior parte dos casos já obsoletos. Muitas “bocas de incêndio” não têm válvulas e devido ao diâmetro elevado das condutas, estas acabam se transformando em depósito de lixo ou local predilecto para as “beatas” de cigarros! No cúmulo da situação, nem sequer os próprios sistemas de abastecimento de água a esses edifícios funcionam!

Mas a questão que estou aqui a falar não se restringe apenas à incorporação de sistemas de prevenção e combate a incêndios nos nossos edifícios, como escadas de emergência, hidrantes, extintores, etc! Existe a componente de “educação” para situações de emergência que tem sido também sistematicamente negligenciada! Há muita gente que perde a vida, porque não sabe se orientar nessas situações e, em vez de agir para salvar a sua vida e a dos demais, entra em pânico, exacerbando o perigo e a insegurança de todos!

Quantos dos leitores sabem por exemplo accionar um “extintor”? Quem tem no seu local de trabalho, escola ou edifício habitacional, um mapa em cada piso indicando as saídas de emergência, os pontos onde se localizam os extintores, etc? Quem já teve uma sessão de explicação do que se deve fazer numa situação de emergência?
Portanto, esses elementos devem passar a fazer parte da maneira como abordamos o nosso quotidiano! Ninguém sabe quando é que uma tragédia acontece e precisamos de estar permanentemente precavidos!

A questão final seria então: “Como Mudamos Urgentemente a nossa “Cultura” de Prevenção e Combate a Incêndios na nossa Prática corrente de Engenharia Civil?

Bom, não serei eu, o Arquitecto do atelier da esquina, o empresário (de sucesso) que quer construir um edifício habitacional, ou o Ministro que quer construir a nova sede do seu Ministério, a tomar essa iniciativa! As hipóteses que isso venha a acontecer de livre e expontânea vontade da parte destes “intervenientes” são, de todo, muito remotas, porque, como referi no início, estas componentes de projecto são onerosas! Ninguém tem dinheiro e pior ainda, ninguém acha (pelo menos até agora) que esses sistemas sejam importantes!

Em qualquer parte do mundo, e Moçambique não pode ser excepção, deve ser a “Lei” a impôr que assim seja! Portanto, o MOPH-Ministério das Obras Públicas e Habitação e os Municípios, que são as instituições que licenciam obras, devem regular estes aspectos em coordenação com a ORDEMO-Ordem de Engenheiros (senhores, chega de andarmos na boleia dos Regulamentos Tugas), impôr e assegurar que projecto algum que não se conforme com as normas de prevenção e protecção contra incêndios seja aprovado para construção!

É assim como as coisas funcionam (period)!

4 comentários:

Chacate Joaquim disse...

Aló Jonathan

o que me deixou ainda mais sem "jeito" é quando o corpo de salvação pública é questionado da situação interna do edifício na altura do incêndio e a resposta foi a seguinte " ainda estam lá homes a verificarem só quando descerem é que teremos alguma informação"!

Ouve cá Jonathan pelomenos um sistema de comunicação eficiente não esperar que o agente morra lá dendro e continuarmos a achar que ele trará resposta ca fora! é pelomenos incrivel a cena que assisti dos nossos Bombeiros

X!mb!t@nE disse...

Estas no teu elemento nesta matéria!! Estou simplesmente chocada com as imagens que nos brindaram os orgaos de comunicação social e com a que mostras aqui neste post.

Céus, como é isto possivel num edificio de contrução recente? Não haver escadas de serviço?

Lembro-me da minha infancia em que era moradora do prédio Rubi, na Samora Machel e neste predio tinhamos escadas de serviço. Lembro-me particularmente das liçoes do guarda Jacinto em que não deviamos empilhar quinquilharias nas escadas pois ser-nos-iam uteis para abandonar-mos o prédio.

Lembro-me ainda, que no dia da explosao do paiol, pela primeira vez, ja nem me recordo quando ou nem pretendo, posto que nao sabiamos do que se tratava (BA's na cidade, era a questao) e nesse dia alguem se tinha lembrado de fazer mudanças de casa. O que nos safou? As escadas de serviço de um edificio da era colonial!

Jonathan McCharty disse...

Sabe Chacate,
Eu nao quis mencionar a questao dos Bombeiros nesta postagem porque todos sabemos das precarias condicoes de trabalho e falta de meios que assolam essa corporacao. Ninguem se preocupa com eles! Mais de metade das provincias deste pais, nao tem Corpo de Bombeiros!
E' sempre mais confortavel comprar frotas de Peugeots ou Mercedes (os da Class C sao "baratuchos") para os directores e cia.
Por isso, nesse cenario de negligencia grauda, alertei para a componente e "prevencao", ja na altura de construcao dos edificios!

Jonathan McCharty disse...

Ximbi,
Obrigado pelo teu relato de infancia! Conforme referi, as autoridades competentes tem que comecar a velar para que, em toda a construcao a ser erguida neste territorio, as normas de seguranca e prevencao sejam cumpridas na integra, seja predio de um "carapau" ou de um "tubarao"!