26 agosto 2008

O Triunfo dos Porcos!!

“Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros!!”
George Orwell in Animal Farm

O assunto do dia é a recente “chicotada psicológica” de Eneas Comiche, Autarca que, conforme a avaliação unânime de vários sectores da sociedade civil moçambicana e da capital do país em particular, estava a pôr o “comboio nos carris”!

Muito tem sido dito e especulado a este respeito e, como um “worried citizen”, me sinto compelido a partilhar alguns “centavos” do meu humilde ponto de vista. Há aqui 4 pontos fulcrais que julgo necessitarem de um debate urgente:

1) Conforme informação avançada pelos media, vozes sonantes no panorama politico do partido no poder, afirmam em uníssono que “Comiche, de resto trabalhou bem, mas falhou na solução dos problemas das bases”. Alguém sabe por acaso o que significa ou quem são essas tais “bases”?? Está claro, mesmo para o cidadão mais incauto que, as ditas “bases”, não passam de “interesses de membros do partido”, as habituais “portas à cavalo”, o “nepotismo”, “clientelismo”, “favoritismo” e todos esses “ismos” promíscuos que permeam e se cristalizam na nossa sociedade, a ponto de passarem a ser considerados como, “processos normais”! Estarão com isto, os nossos camaradas referindo que, “dentre os animais, há uns que sejam mais iguais que os outros??” Que há resolução de problemas para os “telhados” e para as “bases”?? E o cúmulo disto tudo é que, ao falarem nestes termos, de “boca bem cheia e aberta” e sob o olhar impávido e sereno das nossas instituições judiciais, estes senhores nem sequer se estejam a dar conta que estão a violar a “Constituição da República”! O Artigo nº 35 (Princípio da universalidade e igualdade) refere e passo a citar:
Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou opção política”.
Nada vem aqui indicado de tratamento diferenciado e previlegiado, conforme o cidadão pertença ou não às “bases” do partido que esteja no poder, como estes senhores estão a “reclamar”, a ponto de parecer que algum dos seus “direitos adquiridos” lhes esteja a ser limitado e negado.

2) Outra afirmação que praticamente endorsa a “boa governação de Comiche” é aquela que refere que: “nos trabalhos que ele fazia, sentia-se que o partido não sabia”! Fica claro para nós, pacatos cidadãos, que Comiche era “one man’s mind”, que pensava por si e agia de acordo com a lei e com as posturas municipais, coisa que esta gentalha parece não estar habituada e pelos vistos não aceita! Portanto, pode se depreender que o perfil de Autarca que estes camaradas querem é o de um autêntico “pau-mandado”! Que a cada vez que o presidente do Município for ao “Café da Esquina” tenha que informar ao Partido. A este andar, não admira que, caso seja eleito pelo eleitorado, Simango tenha que mandar emails ou faxes à sede do partido, a cada vez que for usar o banheiro do Edificio Municipal!!

3) Esta sociedade civil sabe que, em eleições internas recentes desse mesmo partido, os resultados foram anulados e o candidato vencedor fora posteriormente escorraçado, como forma a satisfazer o que as suas lideranças pretendiam. Se o mesmo critério ocorresse actualmente, veriamos Simango ter o mesmo destino. Portanto, o silêncio “ensurdecedor” dessas lideranças prova que ela se conforma com o “outcome” dessas eleições internas. Acerca disto, gostaria de dar um pequeno olhar à composição do nosso actual elenco governativo: quando se fez aquela autêntica “salada russa” de ministros e ministérios, a ideia inicial que pairou entre nós, foi que a “limpeza geral” tinha como objectivo “imprimir uma nova dinâmica” (como a Zenaida gosta de ironizar), mas hoje, vistas bem as coisas, a motivação real disso tudo era “deter o poder absoluto”. Portanto, ponho um sindicalista a cuidar da Agricultura, um agrónomo nas Obras Públicas (e por ai adiante), e porque esses indivíduos não entendem dos seus pelouros, “eles fazem o que eu ordenar” e eu sem possibilidades reais de obter desafios ou confrontação de posições! Nessa ordem de ideias, Comiche, que abertamente denunciou os efeitos contraproducentes da dupla Administração, (e por essa via, desafiando o poder instituido, que criou e pôs em prática essas medidas) perdeu o perfil de “pau-mandado”, de “yes-man incondicional”, de apóstolo do “chefe nunca está errado” e passou a ser um “homem errado, no lugar errado”! É possivel que o agora escolhido, seja um homem remoto-controlado, que funcione como vem indicado no catálogo!

4) Este processo todo, manda uma mensagem clara a esta juventude, grande parte dela constituinte do actual elenco de Comiche e cujos resultados do trabalho zeloso já estão a ser vividos pelos munícipes:
- “Que a governação em Moçambique, ainda serve apenas para acomodar os interesses partidários, das elites governativas e dos parasitas a elas associadas”.
- “Uma vez não fazendo parte das bases, que o povo se lixe, visto que, tudo o que for feito a seu respeito, não entra na equação de avaliação final do desempenho do governante”!
- “Que quem quiser agir de acordo com a legalidade e a ordem institucional, passa a ser um individuo indesejável”.

No entanto, esta é uma oportunidade soberana para as gentes de Maputo, que pouco ou nada sabem dos feitos do ministro sorridente, darem uma verdadeira lição a este partido e mostrá-lo que está completamente “out of touch” do seu eleitorado! Que qualquer governação se limita única e exclusivamente a servir ao povo e não aos interesses de uma minoria ociosa e que julga que tem o rei na barriga!

Imbuidos desse espirito ardente de cidadania participativa, esta é altura de nos levantarmos e exigirmos uma governação que esteja comprometida e em sintonia com os interesses da maioria, dos “telhados” e não das “bases”!!

10 comentários:

Reflectindo disse...

O caso Eneas Comiche, simulado a democracia e os cabritos venceram mesmo é semelhante ao de Daviz Simango na Beira. Os agitadores têm a mesma cede - talhões a revelia da lei. E a Frelimo mete o nariz na Beira e isso bem revelado num jornal quando Simango necusou a conceder talhão a Carrelo fora da lei, os deputados da Frelimo estavam todos favoráveis na votacão. Fora da Assembleia até disseram que Daviz Simango agira como se não fosse do mesmo partido do Fernando Carrelo.

Eu disse que era uma democracia simulada, pois, segundo uma sondagem aos munícipes de Maputo, Eneas Comiche vencia com uma grande margem ao David Simango, então como é que apenas alguns cidadãos vão impôr um candidato não da preferência dos munícipes?

Vamos a ver se a Renamo há-de aproveitar aquela sondagem para apresentar um candidato da preferência da maioria dos seus simpatizantes.

E David Simango (da Frelimo) tem assim um grande trabalho, pois vai sabendo o que os camaradas querem. Aliás, este é um desafio de todos nós. Como podemos ser sérios assim?

Jonathan McCharty disse...

Reflectindo,
Sao situacoes como esta em que o eleitorado tem que comecar a reagir, em prol da salvaguarda dos seus direitos. Este pais esta' a precisar desse tipo de reaccoes, sob risco de continuarmos a ter politicos e partidos, meramente preocupados com seus umbigos. Alguma imprensa ja' tinha alertado meses atras que, ao negar terrenos aos seus comparsas partidarios, passando assim, por cima das longas listas de pedidosdo genero submetidos pelos municipes (como os ilustres membros "das bases" pretendiam) Comiche estava a arriscar o seu lugar de Autarca da capital. Portanto, temos uma suposta elite partidaria, que nao conhece outro modus-operandi que nao seja, agindo fora da lei.
Eu sou favoravel a uma andidatura independente de Comiche! Alias isso pori em "xeque" a suposta democracia existente nesse partido. Como as religioes, os partidos deve servir para "libertar" os seus membros e nao o contrario. Comiche e' um cidadao livre e a Constituicao lhe garante penos direitos para tal, mesmo que a sua posicao no partido acabe "sacrificada"!

ximbitane disse...

Uma faca de dois gumes é o que se pode concluir. Se uns estao satisfeitos outros estão no seu direito de nao estar.

O que chateia nessa historia, é que Comiche e seu elenco estava a fazer o bem pela capital apesar dos problemas que haviam em outros locais, os tais onde estao as tais bases.

Mas, o homem nao é nenhuma maquina e so tem dois braços! Talvez o erro tenha sido priorizar certas zonas em detrimento de outras... Seja como for, sinto-me defraudada pela atitude dos frelimistas que manifestaram um profundo egoismo para com os seus interesses em detrimento dos meus, como municipe.

Por mim, Comiche era o homem certo, so espero, agora, que os outros partidos ofereçam candidatos do mesmo gabarito.

Jonathan McCharty disse...

Amiga Ximbi,
Acho queha' uma coisa que nao estas a pegar bem: Quando se fala aqui de "bases", neste contexto particular, de maneira alguma se esta' a referir ao Ze' Povinho do qual tu e eu fazemos parte. As "bases" aqui sao as "bases do topo" como o Celso Manguana refere no Canal de Mocambique de hoje.
Portanto, essa menoria que votou contra Comiche fe-lo porque ele nao estava a providenciar-lhes "cavalos de troia", como "normalmente" acontece. Eles julgam-se, portanto, merecedores de tratamento personalizado, a margem da lei.

Ximbitane disse...

É claro que sei! Usaram a metafora deles e eu uso a minha realidade!

Tudo isso é conversa para boi dormir e os tais das bases, Zé Povinho, votar em massa no representante da base alta (piramide invertida?)com o sentimento de culpa por ter chutado o Comiche!

Jonathan McCharty disse...

Hehe, Ximbitane!
Tas a virar uma activista politica ferrenha...!
Nao vejo uma possivel "reaccao" dos municipes a esse respeito. Neste pais, a maioria ainda vota por causa de uma camisete!

Jorge Saiete disse...

Jonathan,

o único pecado de Comiche é o facto de ele pensar, só isso. Não sabia ele que não devia pensar? ninguem o alertou?

é que, quando pensamos ou refledctimos nos problemas, achamos soluções, que muita das vezes chocam com o que os nossos chefes acham. Ele pensou na cidade e negou implementar religiosamente o que o partido decidira. Comiche olhou para os problemas e colocou a dsposição da cidade, a sua experiencia e o saber tecnico e esqueceu-se que o partido tem soluções pré-fabricadas e por isso foi sacrificado.

cuidado, em moçambique ser bom é pecado!

Jonathan McCharty disse...

Caro Saiete!

Concordo quando dizes "cuidado, em moçambique ser bom é pecado!"
Na realidade, ha' muito pouco incentivo para a correccao, honestidade e justica!
Mas nao e' por ai que devemos baixar os bracos e alinhar no comboio da corrupcao! As sociedades mudam com pequenos esforcos, mas com uma determinacao consistente!
Cada um de nos tem que fazer o seu bocado.
Ainda estas por terras da "cabeca do velho", ou ja' voltaste a capital? Acho que devias escrever um pouco sobre a tua jornada!

Jorge Saiete disse...

é um facto que devemos continuar a lutar em sermos melhores para que em caso de sermos humilhados, saiamos pela porta grande como o fará Comiche e Daviz.
já estou cá, desde quarta-feira. abraço

Jonathan McCharty disse...

Concordo que e' altura de deixarmos de ser "conformistas" e essencialmente passarmos a ser parte activa e contribuinte daquilo que almejamos como nacao!

Tenha um optimo fim de semana!